Nove dias. Foi esse o intervalo entre a última bola do Mundial Sub-17 de vôlei masculino, em Doha, e a estreia da Seleção Brasileira Sub-19 no Campeonato Sul-Americano, em Araguari (MG). E o que separa uma competição da outra, para quatro garotos, é apenas uma troca de camisa e um voo doméstico.
Em 29 de agosto, o Brasil bateu a Argentina por 3 sets a 1 (21/25, 25/17, 25/18 e 25/13) e faturou o bronze no Catar — o melhor resultado do país numa competição que existe há apenas duas edições, e na qual a Seleção havia terminado em oitavo lugar em 2024. Em 1º de setembro, a CBV anunciou que quatro atletas daquele grupo comandado por Marcelo Zenni foram convocados para a Seleção Sub-19: o levantador Pedro, os centrais Lucas Dultra e Lucas Abreu e o ponteiro Lorenzo.
Eles se juntam ao elenco de Luiz Carlos Kadylac, que disputa o Sul-Americano da categoria em Araguari, entre 9 e 13 de setembro. É uma movimentação corriqueira no calendário de base — e, ao mesmo tempo, bastante reveladora sobre como a CBV vem operando essa transição entre categorias.
Quem são os quatro promovidos
Lucas Abreu é o nome mais evidente. Central de 16 anos e 1,93 m, do São Caetano, foi o único brasileiro escolhido para a seleção do Mundial, eleito o melhor central da competição. Terminou como maior bloqueador do torneio com 29 pontos no fundamento — 11 a mais que o segundo colocado, o italiano Storini. Na disputa do bronze, marcou sete pontos de bloqueio, o mesmo total de toda a equipe argentina somada. Foi o terceiro maior pontuador do Brasil no torneio, com 74 acertos.
Lorenzo é ponteiro, tem 16 anos, 1,96 m, e defende o Vôlei Renata. Foi o segundo maior pontuador brasileiro em Doha, com 89 pontos, e o principal nome ofensivo do time na conquista do bronze, com 19 acertos contra a Argentina.
Lucas Dultra, central do Minas, dividiu o meio de rede com Abreu ao longo de toda a campanha e terminou o Mundial como terceiro colocado no ranking de bloqueio, com 17 pontos.
Pedro — Pedro Berlitz, levantador de 16 anos e 1,87 m, do Minas — foi o capitão da equipe no Catar. Encerrou o torneio como líder isolado em aces, com 14, e em quarto lugar no fundamento levantamento, com 129 bolas distribuídas.
Vale registrar o contexto da campanha inteira: o Brasil venceu México (3-0), Polônia (3-2) e Argentina (3-0) na primeira fase, passou por Índia e Venezuela sem ceder set, perdeu para a França na semifinal por 3 a 1 e reagiu diante dos argentinos na disputa do bronze. Seis vitórias em sete jogos. O título ficou com o Irã, que superou a França na final.
O que o Mundial mostrou — e o que ele não prova
Aqui é preciso separar o que é fato do que é leitura.
O fato é que a Seleção Sub-17 jogou bem em fundamentos específicos e mensuráveis: bloqueio e saque. Abreu e Dultra ocuparam duas das três primeiras posições no ranking de bloqueio da competição. Berlitz liderou o saque em aces. O líbero João Vitor Palhares terminou em segundo no passe, com 67 recepções positivas, decidido apenas no critério de desempate contra o francês Corentin Agnese.
A leitura — e isso é análise deste texto, não dado da CBV — é que esse perfil de equipe explica bem por que quatro desses atletas foram chamados para o Sub-19 e não outros. Um levantador que serve forte, dois centrais que bloqueiam acima da média continental e um ponteiro que sustentou carga de ataque numa competição mundial são exatamente as peças que um time de turno único, sem margem para tropeço, valoriza.
O que o bronze não prova é que essa geração esteja pronta para qualquer coisa. São atletas de 16 anos, a maioria nascida em 2010, jogando sua segunda competição internacional de peso no ano. A derrota para a França na semifinal foi justamente contra um adversário que impôs mais consistência ao longo dos sets. Rotular esse grupo como salto definitivo do vôlei masculino brasileiro seria atropelar cinco ou seis anos de desenvolvimento que ainda precisam acontecer.
O que os reforços podem mudar no Sub-19
O grupo de Kadylac não chega mal a Araguari. Nos jogos-treino que encerraram a preparação, no Centro de Desenvolvimento do Voleibol em Saquarema (RJ), o Brasil venceu as quatro partidas contra o Chile e perdeu apenas um dos 16 sets disputados, num formato experimental de quatro sets por jogo. Daniel Lameira, Samuel Martins e Erick Martins revezaram como principais pontuadores.
A leitura possível — de novo, projeção, não informação da comissão técnica — é que os quatro chegam mais como ampliação de repertório do que como substitutos imediatos. Dois deles são centrais, numa posição em que o Sub-19 já vinha trabalhando com várias opções desde a lista de junho, montada após a Copa Sada. Ter Abreu e Dultra disponíveis dá a Kadylac a chance de variar a altura e o timing do bloqueio conforme o adversário, algo que pesa num torneio decidido em pontos corridos.
Há também um ganho menos visível: rodagem recente em alto nível. Esses quatro acabaram de jogar sete partidas de Mundial em onze dias, contra Irã, França, Polônia. Chegam com ritmo de jogo que ninguém no grupo consegue simular em treino.
O contraponto honesto é o entrosamento. Sistema ofensivo se constrói com repetição, e eles se integram a um time que treinou junto por meses. Quanto tempo de quadra isso vai render, só a competição dirá.
O que está em jogo em Araguari
O Sul-Americano Sub-19 será disputado entre 9 e 13 de setembro, em turno único — formato no qual, como o próprio Kadylac já observou em edições anteriores, cada jogo funciona como uma final, porque não há repescagem para corrigir um mau resultado.
O Brasil joga em casa e carrega uma conta em aberto: em 2024, na mesma Araguari, a Seleção masculina Sub-19 terminou com a prata, superada pela Argentina. Historicamente, o Sul-Americano da categoria é o caminho de classificação para o Mundial Sub-19, o que dá ao torneio um peso que vai além do troféu continental.
Como a base do vôlei brasileiro faz essa ponte
A movimentação de setembro não é improviso. Ela segue uma lógica que a CBV vem aplicando de forma bastante visível nesta temporada.
Em junho, as seleções Sub-17 e Sub-19 disputaram juntas a Copa Sada, em Santa Rita do Sapucaí (MG) — um torneio de categoria Sub-21, com clubes como Sesi Bauru, Sada Cruzeiro e Inatel. Na ocasião, Zenni explicou que o objetivo era medir o Sub-17 contra adversários mais velhos, como comparativo do que o time encontraria no Mundial. Kadylac, por sua vez, tratou a competição como laboratório para definir a convocação do Sul-Americano.
Ou seja: os dois grupos já haviam treinado e competido no mesmo ambiente meses antes. Promover quatro atletas de uma categoria para a outra não é enxertar estranhos num elenco pronto — é acionar uma ponte que já estava construída. A concentração de atividades no Centro de Desenvolvimento do Voleibol, em Saquarema, reforça isso: os laboratórios de avaliação, os treinos preparatórios e os jogos-treino saem todos do mesmo lugar.
Esse desenho tem sido defendido publicamente pela entidade. Na última semana, o presidente da CBV, Radamés Lattari, voltou a manifestar confiança nos atuais processos de formação de atletas do voleibol nacional — declaração que ganhou repercussão num momento em que a seleção adulta masculina passa por reformulação e enfrenta cobranças.
Perspectivas para esses jogadores
Convém calibrar a expectativa. Subir de categoria aos 16 anos é um indicativo de que a comissão técnica confia no atleta, não uma garantia de carreira. O caminho natural desses meninos passa por Superliga, por Sub-21, por Sub-23 e, eventualmente, pela seleção principal — e cada uma dessas etapas elimina gente.
O que a experiência de Araguari oferece é específico e útil: jogar sob pressão de resultado, em casa, num formato que não perdoa oscilação. É diferente de um Mundial em que o Brasil chegou sem favoritismo e cresceu ao longo do torneio.
Um dado que costuma passar batido: a competição também serve como vitrine. Foi no Mundial que Lucas Abreu falou ao portal da Volleyball World sobre querer seguir no esporte profissionalmente, reconhecendo que ainda é jovem demais para prever o que vem depois. É o tipo de fala que envelhece bem, porque não promete nada.
Conclusão
O bronze em Doha resolveu um problema simbólico para o vôlei masculino brasileiro num momento incômodo: mostrou que a base ainda produz atletas competitivos internacionalmente. Não resolveu o problema real, que é transformar isso em jogadores de seleção adulta daqui a seis, oito anos.
A convocação dos quatro para o Sul-Americano Sub-19 é justamente o primeiro teste dessa transformação — pequeno, mas concreto. Não vai definir o futuro de ninguém, e é bom que não defina. O que ela indica é que a CBV está tratando as categorias de base como um processo contínuo, e não como compartimentos separados que se comunicam por acaso.
Entre 9 e 13 de setembro, em Araguari, dá para observar algo mais simples e mais honesto do que qualquer profecia: como esses garotos reagem quando a quadra pesa e o resultado precisa vir agora.
Fontes consultadas: Confederação Brasileira de Voleibol (cbv.com.br), Web Vôlei, Lance!, O Tempo, Melhor do Vôlei, Olimpíada Todo Dia e Volleyball World. Estatísticas individuais conforme rankings divulgados ao fim do Mundial Sub-17 de 2026.


