Thomas Tuchel jogou uma granada na mistura. Jude Bellingham pegou-o e jogou-o de volta. Houve uma explosão de honestidade em Miami, enquanto todos lutavam para manter a compostura na umidade sufocante, e algo precisa ser feito antes que a Inglaterra tente chegar à final de uma Copa do Mundo masculina pela primeira vez em solo estrangeiro.
É hora de cabeças frias. Tuchel ficou furioso em sua análise imediata da vitória da Inglaterra nas quartas de final sobre a Noruega, dizendo a Gabriel Clarke da ITV que o desempenho foi desleixado, não rápido o suficiente e cheio de erros técnicos. Houve elogios à mentalidade da equipe, mas ela se perdeu um pouco no barulho. Foram as críticas que questionaram Bellingham e a forma como respondeu, voltando aos comentários de Tuchel com alguma franqueza, que arriscou a campanha da Inglaterra a ser prejudicada devido a um desentendimento público entre o treinador principal e o craque.
Bellingham foi sucinto em uma entrevista, encolhendo os ombros e erguendo as sobrancelhas antes de dizer: “Sim, bem, tanto faz… é difícil lá fora”, e continuou em outra entrevista. “Talvez ele não saiba o que é jogar neste tipo de condições contra Erling Haaland, (Martin) Ødegaard, (Antonio) Nusa, (Alexander) Sørloth”, disse o meio-campista, um comentário interpretado por alguns como uma tentativa de examinar a modesta carreira de jogador de Tuchel.
Pareceu uma resposta desnecessária de Bellingham, até porque desviou a atenção da Inglaterra, que sediaria uma semifinal épica contra a Argentina, em Atlanta, na quarta-feira. A preocupação inevitável é que as tensões na sua relação com Tuchel não tenham sido totalmente reparadas.
O comentário de Tuchel sobre o comportamento “abominável” de Bellingham é realmente uma coisa do passado? No calor do momento, havia indícios de que Bellingham ainda não havia esquecido. Seria compreensível que fossem apresentadas queixas. Tuchel optou por uma linha dura no outono passado e retirou Bellingham da seleção. Falou-se sobre a dinâmica da equipe e a hierarquia do vestiário em primeiro lugar. Coube a Bellingham se adaptar e ele aceitou o desafio, atendendo às demandas de Tuchel e forçando seu retorno ao XI antes de se tornar a força motriz da Inglaterra neste torneio.
No entanto, o último episódio de Thomas versus Jude não precisa terminar em drama. A primeira coisa a dizer é que não houve nada de incomum nos comentários iniciais de Tuchel. Sempre sincero com a mídia, sempre perspicaz, e em Miami era fácil ver suas críticas ao desempenho da Inglaterra como uma clássica peça de psicologia gerencial.
Tuchel quer colocar uma segunda estrela na camisa. Chegar aos quatro últimos não é suficiente para ele. Ele quer reforçar os padrões e, nesse sentido, os seus comentários foram uma forma de terapia de choque. Não houve falsificação. O facto é que a Inglaterra teve a sorte de vencer a Noruega, que foi superior durante grande parte do tempo normal, e os comentários de Tuchel fizeram lembrar o tipo de liderança de confronto usada por José Mourinho na sua pompa.
Talvez isso pareça incomum numa época em que alguns treinadores sentem a necessidade de serem sensíveis aos jogadores modernos. Mas Tuchel é da elite. Sua raiva foi expressa com um sorriso. Ele sabia o que estava fazendo. É uma tática usada por muitos grandes nomes. Vimos isso de Pep Guardiola, que muitas vezes chamava os entrevistadores se achava que eles estavam elogiando indevidamente o Manchester City. Sir Alex Ferguson também pode estar amargo na vitória; ele até criticou seu time do Aberdeen após uma vitória na final.
No entanto, existem dois problemas aqui. A primeira é que Tuchel está em desacordo com a clássica reserva inglesa. Sua franqueza parece revigorante, até mesmo inadequada. O que Gareth Southgate teria feito? Ele teria falado sobre a Inglaterra quebrando barreiras e fazendo mais história. Diz-se que ele falou suavemente e com sensibilidade. Tuchel é completamente diferente. Ele fala como as coisas são e não se preocupa muito se isso ofende.
Entra Judas. É aqui que reside o segundo problema: o risco de um choque entre dois egos enormes. Consideremos a posição de Bellingham. Ele tem 23 anos e havia acabado de marcar dois gols em partidas consecutivas de mata-mata. Não é nenhuma surpresa que ele não estivesse interessado na negatividade. Ele não é assim e essa vontade de irritar é parte do que lhe permitiu levar a Inglaterra ao limite quando eles estavam lutando no sábado.
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Talvez Bellingham tenha ido longe demais. Houve um desafio à autoridade de Tuchel na aparente referência à carreira de jogador do ex-técnico do Chelsea. Ainda assim, seria errado Tuchel levar isso a sério. Tuchel deveria estar feliz por ter dado a Bellingham outro ponto a provar. Ele também deve aceitar que, se cultivou uma cultura de honestidade, não poderá reclamar se receber algo em troca de vez em quando.
Torna-se um problema quando ocorre em público. Da mesma forma, não se pode exagerar o quão brutais eram as condições em Miami. Bellingham deve ter ficado física e mentalmente devastado. Ele falou pouco depois do apito final e é pouco provável que tivesse conseguido aplicar os filtros habituais nessas circunstâncias.
Nenhum dos dois tem nada a ganhar ao permitir que isto se agrave. Tuchel deveria minimizar isso na próxima vez que falar com a mídia. Ele deve fazer piada disso. Talvez ele possa rir de si mesmo. Talvez ele possa ressaltar que Bellingham não pode falar de tática até levar um time à glória na Liga dos Campeões.
Tuchel deve encontrar uma maneira de garantir que a “irmandade” da Inglaterra não se desintegre durante um dos jogos mais intensos e emocionantes de que há memória. É encorajador que alguns no acampamento pensem que isso vai passar. A Inglaterra tem a chance de fazer história esta semana. Eles só farão isso se Bellingham e Tuchel estiverem na mesma página.



