Rafa Fidalgo Esperei a semana inteira por esse momento. O nervosismo apareceu dias atrás, quando a contagem regressiva para o Mundo Começou a ficar mais curto, mas duas horas antes da partida chegaram a outro nível. Javier Aguirre anunciou o onze titular do México e lá estava o nome que ele procurava: Álvaro Fidalgo. Seu neto. “Já sabíamos que ele iria começar.”
A Copa do Mundo começou às nove horas da noite no Estádio Azteca – ou Estádio da Cidade do México, como a FIFA obriga a ser chamado durante o torneio -. e um menino nascido em Hevia, criado no futebol entre Oviedo, Mareo e Valdebebasseria um dos protagonistas da inauguração. Embora metade do mundo aguardasse o início de um dos maiores eventos desportivos do mundo, havia um motivo especial para ligar a televisão em Hevia. A Espanha só se estreia na segunda-feira, mas as Astúrias jogaram ontem. E fê-lo através de Álvaro Fidalgo, único futebolista asturiano presente no Mundial e que venceu o jogo contra a África do Sul..
O jogo não foi exibido em nenhum bar. A data era importante demais para isso. Rafa Fidalgo o seguiu desde casa, no sofá de sempre e no lugar de sempre. Ao lado dele, uma camisa do Betis com o número 8 do neto. Pois bem, a do Club América, time mexicano onde Álvaro se tornou ídolo e de onde eventualmente se abriram as portas da seleção.
A grande questão da noite veio rapidamente. Hoje com o México ou com a Espanha? Fini não hesitou. “Vou com meu neto”, disse ele. E depois acrescentou, rindo: “Mas se o México perder, vou para a Espanha”. Rafa também não escondeu suas preferências para aquela noite. “É sempre preciso apostar na Espanha, mas hoje (ontem) apostamos no Álvaro”, resumiu.
Assim que Rafa ligou a televisão, sua esposa, Fini Vallina, pegou o controle remoto para ligar o La 1. E teve Álvaro, durante a execução do hino nacional mexicano. Rafa então, com certa pressa, vestiu a camisa do neto.. “Para entrar é preciso descer um pouco, eu acho”, brincou Fini, rindo. Então ela apontou orgulhosamente para a tela. A cena se repetiu diversas vezes durante a noite. Cada vez que as câmaras focavam Álvaro, um dedo subia do banco para apontar para ele. Como se houvesse necessidade de identificá-lo.
O telefone tocou durante o hino nacional mexicano. Ele era irmão do Rafa, de Huesca. Perguntou se viram Álvaro. A pergunta parecia redundante. María José, tia e madrinha do jogador de futebol, também aparecia ocasionalmente na sala. Ele tentou esconder o nervosismo, embora nem sempre conseguisse. “Essas coisas me deixam muito nervoso”, disse ele..
Nas arquibancadas da Azteca estavam seus pais, que decidiram viajar no último minuto. “Eles se aqueceram e disseram: ‘Vamos, vamos lá’”, disseram em casa. A milhares de quilómetros de distância, numa casa asturiana, o orgulho também ocupava todo o espaço.
A família não tinha falado muito com Álvaro nos últimos dias. “Ele está focado. E com a imprensa e tudo…”, explicaram em casa. Ninguém precisava de muito mais palavras para entender o que ele estava vivenciando. Rafa conhece bem o futebol. Jogou na equipa principal de Oviedo e passou muitos anos no Langreo. “O futebol sempre foi vivido nesta casa”, lembra. Talvez por isso ele guarde tantos momentos da jornada do neto.
Quando veio a ligação da seleção mexicana, Rafa também lembra perfeitamente da emoção do momento. “Falou-se que ele poderia ir. Quando o técnico ligou para ele, fiquei muito feliz. Disse para ele se preparar bem, que ir para uma Copa do Mundo é coisa séria”, disse.. “Ele é um menino muito bom. No México eles o amavam muito. Ele é um companheiro muito bom”, enfatizou seu avô. Destacou ainda outra qualidade: “O Álvaro fala muito bem. É sempre com ele que querem falar depois dos jogos”.
O jogo mal havia começado quando veio a primeira explosão de alegria. O México marcou aos 8 minutos. Foi comemorado exuberantemente na sala. Era a equipa do Álvaro. A equipa que acompanhou toda a família durante uma noite. Não foram apenas sorrisos. Houve uma falta sobre o médio asturiano que o deixou sem fôlego. “Vamos, nada. Levanta, Álvaro”, responderam do banco. Cada vez que a bola passava por ele, o nervosismo voltava. Porque para o resto do mundo aquele era o jogo de abertura de uma Copa do Mundo. Para eles ele ainda era o garoto do Hevia.
No segundo tempo veio um dos momentos mais comentados da sala. Álvaro apareceu perto da área e teve boa chance. “Ele deveria ter atirado direto na porta”, reclamou Rafa. A peça levou a uma conversa de vários minutos. Houve também orgulho em cada intervenção, em cada disparo televisivo, em cada corrida do médio.
Um novo capítulo começará na próxima sexta-feira, contra a Coreia. Haverá mais nervosismo, mais telefonemas, mais comentários sobre se devo passar ou chutar e mais olhos em cada aparição na tela. E sem dúvida a mesma cena se repetirá: a de um avô apontando orgulhosamente para a televisão cada vez que aparece o neto. Como se o mundo inteiro já não soubesse quem é Álvaro Fidalgo.



