CFaltam ainda 365 dias para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que acontecerá em oito cidades brasileiras entre 24 de junho e 25 de julho do próximo ano. Este será o terceiro grande torneio de futebol feminino a ser realizado no país nas últimas duas décadas, depois dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, e os preparativos estão a todo vapor.
A ex-zagueira Aline Pellegrino, que foi capitã em 2007, foi nomeada diretora executiva de legado e assuntos de partes interessadas para o torneio de 2027 e liderará os esforços para construir o futuro do futebol feminino além do torneio. A final da Copa do Mundo, que será disputada no Maracanã, coincide com o vigésimo aniversário da medalha de ouro do Pan-Americano do Brasil.
“O próprio fato de a Copa do Mundo Feminina chegar ao Brasil pela primeira vez representa um legado construído por gerações de mulheres que permaneceram invisíveis por muito tempo”, disse Pellegrino ao Moving the Goalposts. Ela diz que seu sonho para o futuro do futebol feminino no país é que “o torneio seja lembrado não apenas pelas partidas disputadas, mas também pelas mudanças que trouxe para as gerações futuras”.
Uma das atuais capitãs da seleção – responsabilidade compartilhada com jogadoras como a lendária Marta – a meia Angelina Constantino tinha apenas sete anos na época do Pan-Americano. No entanto, ela sabe que carrega consigo uma parte da história da seleção feminina ao vestir a icônica camisa 8, usada anteriormente pela lenda brasileira Formiga.
Tendo representado o Brasil em todas as faixas etárias, ela se tornou líder da seleção principal e foi capitão do time que derrotou a Espanha por 4 a 2 e chegou à final olímpica em Paris 2024. Constantino sabe que suas atuações em campo no próximo ano significarão muito mais para as brasileiras e meninas do que uma partida de futebol.
“Assim que entrarmos em campo para a partida de abertura, precisamos de muita força de vontade, coragem e amor por essa camisa”, afirma. “Jogando em casa, tendo nossas famílias assistindo, as pessoas com quem crescemos estarão lá… e além desse sonho sabemos que representaremos o país inteiro, então sinto que este é um grande momento para o futebol feminino. Do jeito que está crescendo, podemos usar esse momento especial e histórico para algo maior, para mudar a história do futebol brasileiro e a forma como as pessoas nos veem.”
À medida que a Copa do Mundo se aproxima, antigos e atuais jogadores esperam que o torneio acelere os processos que já estão ocorrendo. Pellegrino e Constantino esperam que o torneio mostre a evolução do futebol feminino em todo o país, ao mesmo tempo que sonham com a primeira vitória das mulheres brasileiras na Copa do Mundo. Eles perderam a final de 2007 por 2 a 0 para a Alemanha, na China. Em casa, porém, eles esperam que o apoio dos torcedores seja crucial, assim como foi nos Jogos Pan-Americanos há 20 anos, quando o Brasil derrotou os Estados Unidos por 5 a 0 no Maracanã, diante de uma multidão de mais de 70 mil pessoas.
Pellegrino diz que aquele dia foi o mais memorável de sua carreira como jogadora. “Eu era o capitão e estava na frente da fila. A sensação que experimentei ao sair daquele túnel e estar diante de mais de 70 mil brasileiras torcendo pela seleção feminina é indescritível. Foi um momento único, emocionante e inesquecível que ficará comigo para sempre.”
Este mês, as torcedoras brasileiras do futebol feminino tiveram um gostinho do que esperar em termos de experiência. A Seleção disputou dois amistosos contra os EUA e quebrou recordes de público e audiência. A primeira, disputada em São Paulo, atraiu 31.336 torcedores à Neo Química Arena – embora a partida tenha sido marcada no mesmo horário de um amistoso da seleção masculina de preparação para a Copa do Mundo. A segunda, realizada na Arena Castelão, em Fortaleza, atraiu 55.744 torcedores, estabelecendo recorde de público para o futebol feminino na região Nordeste do país.
“Toda vez que jogamos em São Paulo a torcida vem e nos apoia durante toda a partida. E para mim foi muito especial jogar em Fortaleza porque não sabia quantas pessoas estariam lá. Li em algum lugar que 68% dos 55 mil torcedores eram mulheres, então vemos um público diferente. Isso me deixou muito feliz; eles foram ótimos, nos apoiaram em tudo. Eles nos aplaudiram, adoraram que estivéssemos lá. Foi definitivamente uma prévia do que faremos no próximo ano.”
Os torcedores chamaram a atenção durante os dois jogos. Depois da derrota por 2 a 1 em São Paulo, a técnica dos EUA, Emma Hayes, disse que “nunca tinha ouvido nada parecido antes” e que eles tinham que olhar para o meio ambiente como uma “sombra” para o que estava por vir no próximo ano. O Brasil venceu a primeira partida por 2 a 1, mas os EUA se reagruparam para vencer por 1 a 0 três dias depois, em uma partida emocionante em que a seleção brasileira recebeu oito cartões vermelhos entre jogadores e membros da comissão técnica, enquanto seis jogadores americanos receberam cartões amarelos.
“Os brasileiros são realmente apaixonados, muito intensos”, diz Constantino. “Imagino que tenha sido um choque cultural para os americanos porque a energia nos jogos aqui nos EUA é completamente diferente. É um espetáculo. Para os brasileiros é tudo uma questão de futebol, então a torcida pressiona o adversário. Eles são o nosso 12º jogador e jogar contra a gente em casa é difícil. Não dá para nem se ouvir em campo, tem muito barulho e torcida quando eles vão atrás da bola, o que nos ajuda muito.”
Este é um período chave. Pellegrino está construindo um legado fora do campo, desenvolvendo estratégias para apoiar o futebol feminino, melhorando a infraestrutura e criando impacto social, enquanto Constantino se concentra em seus esforços dentro de campo.
“O futebol feminino brasileiro tem uma história marcada por muita luta e resiliência”, disse Pellegrino. “Foi construído por mulheres que ousaram jogar futebol nos períodos em que era proibido, mas também nos anos que se seguiram, quando ainda enfrentavam muitas barreiras. Ouvir, valorizar e honrar estas histórias é essencial se quisermos reparar a história.”
Muito já foi feito. Este mês, o governo do Brasil deu os primeiros passos para o reconhecimento de ex-jogadoras ao introduzir uma lei para a Copa do Mundo Feminina que, entre outras coisas, compensará financeiramente as pioneiras da seleção nacional pelos seus serviços prestados entre as décadas de 1980 e 1990.
Estes são tempos emocionantes para o futebol feminino no nosso país.
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