A oitava edição da Copa do Mundo de Futebol, realizada na Inglaterraé lembrado por vários motivos. O gol fantasma na final entre ingleses e alemãeso roubo do troféu resolvido pelo cachorro Pickles e os gols dos grandes Eusébio. Mas também por uma das surpresas da competição: a classificação para as quartas de final de uma equipe que em teoria deveria estrear e se despedir.
Coreia do Norte foi a terceira seleção asiática a participar de uma Copa do Mundodepois das Índias Orientais Holandesas – hoje Indonésia – em 1938 e da Coreia do Sul em 1958. Na época, a Ásia não tinha vaga permanente nesta competição e as seleções tinham que disputar uma vaga nos play-offs contra rivais de outros continentes.
Foi assim que a imprensa britânica explicou o desempenho da Coreia do Norte / O ECO DO NORTE
Em 1966, a sorte sorriu para os norte-coreanos. Apenas cinco eleições asiáticas foram registadas na fase anterior, mas quatro delas desapareceram da lista por motivos diversos. Por exemplo, a Coreia do Norte enfrentou a Austrália pela qualificação em duas partidas disputadas em campo neutro, o Camboja. Ele venceu as duas partidas e esteve entre os 16 participantes da Inglaterra’66.
A jornada que não durou pouco
Um elenco de equipes repletas de profissionais acompanhados pela ilusão de uma combinação de jogadores de futebol amadores sem experiência internacional. A expedição norte-coreana foi composta por 70 pessoas, entre jogadores, treinadores, dirigentes e até chefs. Não tinham intenção de passar da fase de grupos: o sorteio levou-os ao então número dois europeu, a URSS, mas também ao Chile e à então já bicampeã mundial, a Itália.
‘Cinderela’ caiu na graça Middelsbroughonde aconteceram as partidas da primeira fase. Talvez por causa de sua aparente modéstia, talvez porque a cor vermelha do seu uniforme coincidisse com a do time local, ‘Boro’, mas a verdade é que os torcedores locais simpatizaram com os asiáticos. Também por uma certa compaixão depois de terem perdido claramente por 3-0 para os soviéticos no primeiro jogo.
Aos 88 minutos da segunda partida no extinto Ayresome Park, a expedição norte-coreana quis fazer as malas. Perderam por 1 a 0 para o Chile e não tiveram opções, mas tiveram naquele momento Pak Sung-jin acertou um chute de entrada da área para surpreender Juan Segundo Olivares. Um ponto para os norte-coreanos, que só tiveram uma chance de avançar às quartas de final: vencer a toda-poderosa Itália.
A surpresa do Middlesbrough
Mazzola, Rivera, Facchetti… Parecia um desafio impossível para o sortudo time asiático, apoiado pelos torcedores locais. Em 19 de julho de 1966 – 20 de julho às 3 da manhã na Coreia do Norte – o triunfo transalpino quase não foi discutido. E mais, com os ataques constantes dos homens de Edmondo Fabbri no primeiro tempo. No entanto, a Itália sofreu um revés: O capitão Bulgarelli lesionou-se com meia hora de jogo e nenhuma alteração pôde ser feita naquele momento.. A equipe Azzurra ficou com dez jogadores.
E aí apareceu Veja Doo-Ik, com o 7 nas costas. Na Itália surgiu uma lenda urbana de que ele era um dentista modestoembora a realidade seja que ele trabalhava em uma gráfica em Pyongyang. Porém, a coisa do dentista encaixou bem na definição do que aconteceu aos 42 minutos. Cruzamento de frente e o goleiro Albertosi observa a bola parar na rede. A Coreia do Norte liderou a Itália antes do intervalo!

Um dos golos da Coreia do Norte frente a Portugal / VÍDEO FIFA.COM
Mantendo-se à frente durante todo o segundo tempo e apesar da inferioridade numérica, os italianos estavam confiantes em virar o jogo ou pelo menos conseguir um empate que os classificasse para as quartas-de-final. Oposto, uma equipe com mais entusiasmo do que nunca para alcançar um feito impensável e um goleiro, Li Chan-Myung, que crescia a cada minuto. Os norte-coreanos resistiram e a surpresa foi um facto. Quem fez as malas foi um time italiano que rrecebido em Gênova pelo furioso ‘tifosi’ com um tomatazo limpo.
Eles encontraram Eusébio
A conquista poderia ter sido ainda maior. Nas quartas de final, A Coreia do Norte teve que enfrentar uma das superpotências europeias do momento, Portugal, que havia eliminado o Brasil na fase de grupos. Eles trocaram o Middlesbrough pelo Liverpool porque a partida seria disputada no Goodison Park, casa dos jogos do Everton. A expedição norte-coreana que não tinha intenção de continuar com o torneio ficou no Loyola Hall uma residência católica que a Itália havia reservado anteriormente com esse vínculo em mente.
Havia motivos para sonhar. Os asiáticos – com cerca de 5.000 torcedores do Middlesbrough nas arquibancadas para torcer por eles em Liverpool – Surpreenderam os portugueses nos primeiros 25 minutos. Eles marcaram três gols! E eles queriam mais, porque não paravam de atacar. Mas surgiu a ‘pantera negra’, o grande Eusébio, que levou Portugal às costas para mudar tudo.
O jogador do Benfica marcou dois golos antes do intervalo e marcou mais dois na segunda parte para selar a recuperação. José Augusto empatou a final 5-3 que acabou com o sonho norte-coreano. Apesar da derrota, a conquista da classificação para as quartas de final e a primeira vitória de um país asiático na história da Copa do Mundo fizeram com que regressar aos seus países como heróis, com promoções militares para os jogadores e em alguns casos, como o do ‘dentista’ que marcou o golo contra a Itália, transformaram-se em mitos norte-coreanos.
36 anos depois, em 2002, Oito desses jogadores e o técnico norte-coreano Rye Hyun-Myung relembraram esse marco no documentário da BBC “O jogo de suas vidas”.. Essa experiência sem dúvida mereceu aparecer com letras douradas nos quase cem anos de história da Copa do Mundo. Uma história de esperança que ninguém poderia imaginar poderia tornar-se realidade no país que inventou o futebol há sessenta anos. A grande conquista da Coreia do Norte.



