Existe uma pergunta que a torcida do Palmeiras evita fazer em voz alta, porque a resposta mexe com um patrimônio construído desde 2020: até quando o temperamento que ajudou a transformar o clube continuará sendo um ativo, e a partir de que ponto ele passa a cobrar uma fatura?

O empate por 1 a 1 com o Mirassol, no domingo (30), no Maião, devolveu o assunto ao centro do debate. Não pelo placar — o Palmeiras seguiu na liderança do Brasileirão com 52 pontos, ainda que o Flamengo tenha encurtado a distância —, mas pelas imagens do fim do jogo. E, na segunda-feira, pelo desdobramento no tribunal. soccerway

O que aconteceu em Mirassol e por que virou caso

Irritado nos minutos finais, Abel Ferreira tentava chamar a atenção do árbitro João Vitor Gobi quando chutou um microfone posicionado à beira do gramado. Nas imagens, o treinador aparece invadindo o campo enquanto gesticulava em protesto. O vídeo circulou em massa nas redes ainda na noite de domingo. Terra

Na coletiva, o técnico foi direto sobre a arbitragem. Reclamou de critério irregular ao longo dos 90 minutos e argumentou que jogos desse porte pedem árbitros mais preparados — disse conhecer o profissional, que costuma apitar o Paulistão, e sustentou que o Brasil tem nomes melhores para esse tipo de competição. Também contestou a expulsão de Arthur nos acréscimos e, num movimento menos habitual, cobrou publicamente o rendimento de atacantes, apontando que Vitor Roque não está em forma. TerraJornal Record

O episódio do microfone não ficou no campo simbólico. Na segunda-feira (31), a Procuradoria do STJD denunciou o treinador com base no artigo 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata de conduta contrária à disciplina sem enquadramento específico em outro dispositivo. A Procuradoria também denunciou o árbitro Gobi, o quarto árbitro Roger Goulart e o VAR Ilbert Estevam da Silva, que terão de explicar por que não expulsaram o técnico durante a partida. A pena prevista vai de uma a seis partidas de suspensão. TerraGazetaweb

Um histórico que o tribunal não ignora

O ponto delicado para o Palmeiras é que este não é um caso isolado, e a Justiça Desportiva costuma pesar reincidência.

Em abril de 2026, o Pleno do STJD julgou dois processos contra Abel — expulsões diante de São Paulo e Fluminense — e reduziu a punição total de oito para sete jogos, mantendo integralmente a pena de seis partidas relativa ao clássico com o São Paulo. Em 2023, ele já havia sido suspenso por dois jogos após chutar um microfone de captação de áudio no Mané Garrincha, na final da Supercopa contra o Flamengo — e também levou dois jogos, no mesmo ano, pelo gesto e pela frase dirigidos à arbitragem ao deixar o gramado em Porto Alegre, contra o Grêmio. Abel Ferreira, do Palmeiras, tem pena reduzida pelo STJD, mas segue suspenso +2

Some-se a isso um detalhe menos citado, mas relevante para a leitura de padrão: em julho de 2025, mesmo após uma vitória sobre o Grêmio no Allianz Parque, Abel chutou um microfone da transmissão logo depois do apito final. Ou seja, a reação nem sempre depende de derrota ou de arbitragem. Às vezes depende apenas de frustração. Terra

É um conjunto de episódios ao longo de anos, não uma sequência recente de descontrole. Mas é justamente por se estender no tempo que ele deixa de ser um incidente e passa a ser tratado como característica.

O que dizem os analistas — e o que isso vale

Aqui é preciso separar camadas, porque o debate público brasileiro tende a embaralhá-las.

A crítica de colunistas é opinião, não sentença. Colunistas do UOL repercutiram negativamente a atitude do treinador, ligando arbitragem, invasão de campo e o microfone num mesmo pacote de comportamento. Felipe Melo, hoje comentarista, questionou publicamente a decisão de Abel de citar nomes de jogadores ao criticar rendimento — um recorte diferente, mais sobre gestão de vestiário do que sobre arbitragem. Torcedores

Vale registrar também que a crítica ao comportamento de Abel não nasceu agora. Ainda em 2023, após a Supercopa, jornalistas condenaram publicamente sua postura à beira do campo, e o Palmeiras respondeu com nota oficial repudiando o que classificou como ataques irresponsáveis ao treinador. O roteiro — episódio, repercussão, blindagem institucional — já se repetiu algumas vezes. Jovem Pan

Nada disso comprova, por si só, que exista crise. Comprova que existe recorrência de pauta. São coisas diferentes, e boa parte da confusão no debate vem de tratá-las como sinônimo.

O possível incômodo interno: o que se sabe e o que não se sabe

Em 1º de setembro de 2026, o jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, afirmou existir incômodo interno no Palmeiras com a postura do treinador, e que o clube já teria conversado com Abel sobre o tema.

É preciso ser rigoroso: trata-se de apuração de bastidor de um colunista, não de comunicado oficial nem de declaração de dirigente. Não há, até a publicação deste texto, manifestação pública da presidente Leila Pereira ou do departamento de futebol confirmando essa conversa. Quem lê deve tratar a informação como o que ela é — relato de fonte, com o peso da credibilidade de quem o assina, mas sem confirmação institucional.

O que está documentado é algo distinto e, em certa medida, contraditório com a leitura de atrito. Segundo apuração do UOL, o Palmeiras ficou incomodado com a condução do caso pelo STJD, alegando que soube da situação pela imprensa e argumentando que nem o árbitro nem o VAR entenderam que o chute no microfone merecia expulsão. A diretoria avalia que o episódio já havia sido observado em campo e que a Procuradoria estaria reavaliando algo já apreciado pela arbitragem. BolaVIPO Hoje

Ou seja: publicamente, o clube defendeu o treinador. Se há desconforto, ele convive com a blindagem externa. Isso não é incoerência — é a operação normal de um clube que protege seu ativo em público e cobra em privado. Mas é exatamente essa dupla via que torna o assunto instável.

Personalidade forte: vantagem competitiva ou risco institucional?

Os dois lados têm argumentos sólidos, e quem despreza um deles está simplificando.

A favor. Abel Ferreira é o treinador mais vitorioso da história do Palmeiras, e a intensidade não é um efeito colateral do trabalho dele — é parte do método. Um técnico que compra briga com arbitragem, com calendário e com narrativa externa cria um efeito de proteção sobre o elenco: a pressão que chegaria aos jogadores é interceptada por ele. Em jogos decisivos, essa energia à beira do campo tem valor real. Times comandados por perfis assim costumam demorar mais para se entregar.

Além disso, parte das reclamações tem base concreta. Ele voltou a criticar a diferença de descanso entre equipes e o desgaste do calendário — argumento que já havia levantado antes e que sustentou de novo após o jogo em Mirassol, ao apontar que o adversário teve uma semana inteira de preparação. É uma queixa estrutural do futebol brasileiro, não um capricho. Gazeta Esportiva

Contra. O problema é que o custo se acumula fora do campo. Suspensões tiram o treinador do banco em momentos decisivos, e é aí que a conta chega ao departamento de futebol. Um técnico que já cumpriu ganchos longos em 2026 e volta a responder por conduta em setembro — com o clube na liderança do Brasileirão e vivo na Copa do Brasil — não está apenas gastando imagem. Está colocando em risco a própria presença no banco na reta final da temporada.

Há ainda um efeito de percepção. Quando a reclamação vira rotina, ela perde força argumentativa. O treinador que protesta sempre é ouvido como ruído, mesmo quando tem razão. Esse é, talvez, o prejuízo mais silencioso: a erosão da credibilidade da própria crítica.

Como o comportamento respinga em quatro frentes

Nos jogadores. A proteção pública funciona nos dois sentidos. Ao cobrar nominalmente o rendimento de atletas na coletiva, o treinador rompe o próprio padrão de blindagem que construiu. Num elenco jovem e desfalcado — com baixas como Alexander Barboza, Jhon Arias, Jefté, Paulinho, Piquerez e Ramón Sosa —, exposição individual tende a render menos do que cobrança interna. VAVEL

Na arbitragem. Não existe evidência de que árbitros retaliem, e nenhuma acusação nesse sentido deve ser feita sem prova. Mas existe algo mais banal e igualmente relevante: um técnico com histórico de conflito vira alvo prioritário de atenção. O caso de Mirassol ilustra isso de forma quase didática — a própria equipe de arbitragem foi denunciada por não ter agido em campo. Da próxima vez, a tolerância tende a ser menor. Terra

Na torcida. A relação já era oscilante em 2026. Em agosto, uma organizada voltou às redes para dizer que a paciência havia acabado e pedir a saída do treinador, mesmo com o time líder do Brasileirão. O clube tratou a manifestação como perseguição e blindou o técnico. Quando o resultado esportivo não sustenta o discurso da cobrança, o comportamento vira o argumento disponível. Jornal RecordLANCE!

Na direção. Aqui está o ponto mais sensível. Em julho, Leila Pereira afirmou que não pretende discutir uma nova renovação durante sua gestão, deixando a decisão para o próximo presidente, já que o contrato vai até dezembro de 2027. Vale lembrar que o vínculo assinado no fim de 2025 não prevê multa rescisória. Não é sinal de ruptura. Mas é uma moldura contratual que dá menos gordura política a episódios recorrentes do que havia em 2021 ou 2022. Goal.com Brasilsoccerway

O que pode acontecer daqui para frente

Três cenários, em ordem de probabilidade.

O mais provável é uma punição curta. O enquadramento no artigo 258 abre um leque largo, e a reincidência pesa, mas o próprio caso tem atenuantes evidentes: dano material irrelevante e ausência de agressão a pessoas. Uma suspensão de uma a duas partidas resolveria o processo sem alterar o eixo da temporada.

O cenário intermediário é o de desgaste acumulado. Nele, nada explode — apenas cada novo episódio custa um pouco mais caro em capital político, até que uma sequência ruim de resultados encontre um ambiente já sensibilizado.

O menos provável, hoje, é o de ruptura. Não há indício público de que o Palmeiras cogite mudança com o time na liderança do Brasileirão e nas quartas da Copa do Brasil — o Verdão venceu o Santos por 3 a 0 no jogo de ida e decide a vaga na Vila Belmiro. Ruptura de meio de temporada com líder de campeonato não é o comportamento histórico dessa diretoria. Terra

A análise: o problema não é o temperamento, é a repetição

Minha leitura é que o debate está mal formulado quando se pergunta se Abel Ferreira “deveria mudar quem é”. Ele não deveria, e provavelmente não conseguiria. A intensidade dele é indissociável do ciclo mais vitorioso da história recente do Palmeiras, e clubes que tentam domesticar treinadores vencedores costumam perder o que os tornava vencedores.

A pergunta útil é outra: qual é o preço da repetição — e quem paga.

Um chute em microfone, isolado, é uma nota de rodapé. O mesmo gesto repetido em 2023, em 2025 e em 2026 deixa de ser reação e passa a ser assinatura. E assinaturas, no futebol brasileiro, são interpretadas por tribunais, por árbitros, por jornalistas e por conselheiros — todos com memória longa. O custo, aqui, não é moral. É operacional: são jogos sem o treinador no banco, num ano em que o Palmeiras disputa título ponto a ponto com o Flamengo.

Existe também uma assimetria que raramente se admite. Abel construiu autoridade suficiente para cobrar publicamente arbitragem, calendário e imprensa. Essa mesma autoridade o expõe a um padrão de escrutínio que treinadores menos vencedores não enfrentam. É injusto? Em parte. É previsível? Completamente. E lidar com o previsível faz parte do trabalho de quem comanda um clube desse tamanho.

Se de fato houve conversa entre clube e treinador sobre postura — e isso, repito, segue no terreno da apuração de bastidor —, ela não indica crise. Indica maturidade institucional. O Palmeiras de 2026 é uma organização que precisa proteger seu treinador do ruído externo e, ao mesmo tempo, proteger-se do custo desse ruído. Fazer as duas coisas ao mesmo tempo é difícil. Mas é exatamente aí que se mede a diferença entre um clube que administra sucesso e um clube que apenas o desfruta.

O desgaste institucional raramente chega por um episódio. Chega quando o clube começa a gastar mais energia explicando o treinador do que ele gasta ganhando jogos. O Palmeiras ainda não está nesse ponto. Mas a distância até ele encolheu.

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