A ‘espanilização’ do Real Madrid é uma promessa antiga que encontra nova ressonância na situação inédita criada pela convocação de Luis de la Fuente para a Copa do Mundo, em que pela primeira vez na história da seleção espanhola para um evento desta magnitude não há torcedores do Real Madrid. É o resultado da aposta no capital estrangeiro, com exceção de jogadores específicos como Carvajal, que se despediu este domingo e simbolizou o fim de uma era.
Riquelme pede a ‘espanilização’ que Florentino prometeu
Enrique Riquelme, candidato à presidência do Real Madrid, levantou nas primeiras intervenções a mesma bandeira que Florentino uma vez levantou. “Se os membros decidirem, mude essa parte e devolveremos à seleção espanhola aquelas estrelas que podem deixar a nós, espanhóis, orgulhosos dessa convocação.”disse o presidente da Cox na inauguração da sede. Uma promessa que vem acompanhada de outras como a aposta nas camadas jovens ou o fortalecimento do futebol feminino.
Não é novo. O atual presidente, Florentino, e seu rival nas urnas sabem bem disso. “Vamos espanholizar o Real Madrid”, disse ele em 2009, após assumir a propriedade. Fê-lo num contexto de força da seleção nacional, com a recente vitória do Europeu. Na cabeça dos torcedores brancos havia jogadores como Villa ou Silva, que nunca vestiram branco.
“Pedro León (recém-aposentado) e Sergio Canales (poderia fazer uma última dança no ‘seu’ Racing) são verdadeiras promessas do nosso futebol que estão inseridas no processo de espanholização que queremos e que iniciamos no ano passado”, disse Florentino antes da Assembleia Geral Ordinária do Real Madrid em 2010. Faltavam ainda quatro anos para conquistar a tão esperada Décima. A segunda do seu mandato.
Pedro León, do Getafe. / Agências
Participaram dela alguns daqueles homens que fizeram parte de uma “espanilização” que acabou se desintegrando com o tempo. Naquele verão, há quinze anos, chegaram homens como Albiol, Granero, Arbeloa e Xabi Alonso, embora apenas os dois últimos tenham conseguido se fortalecer no onze inicial.
Nos cursos seguintes apareceriam nomes como os citados naquele discurso de 2010, envelhecendo pior do que o presidente gostaria. O Real Madrid adquiriu Canales, Pedro León e Callejón, numa jogada de renovação que optou pelo produto internoexatamente o oposto da onda recente, onde, com Juni Calafat à frente do show de talentos, optaram pelo mercado brasileiro (Rodrygo, Vinicius…) ou pelo mercado europeu (Tchouaméni, Camavinga…).

Sergio Canales durante partida da Liga MX com o Rayados de Monterrey /EFE
Canales foi uma grande aposta que não deu certo. Illarramendi também não fez isso algum tempo depois. O tempo tem o Quinta del Buitre como o grande grupo que apoiou um Real Madrid que, apesar de elogiado pelo seu jogo, não chegou à Liga dos Campeões durante três décadas.. É por isso que a promessa do “sabor espanhol” tem sido um placebo para um sector de adeptos do Real Madrid.
‘A Fábrica’ de sucessos, uma entidade independente
Aquele que entende que Gonzalo é prioritário em relação a contratações como Mastantuono. Para a maioria, porém, prevalece o sentimento ‘Galáctico’ de ter os melhores jogadores em Madrid, de onde quer que venham. Daí a chegada de Mbappé de Bellingham, que tentará coordenar um novo treinador com Vinicius e outras estrelas estrangeiras.
Quem escolheu Florentino para encarnar esta missão foi José Mourinho. Outro treinador sem passaporte espanhol. Os últimos treinadores a triunfar em Chamartín também não o tiveram: Zinedine Zidane e Carlo Ancelotti. Mesmo a chegada de Huijsen e Carreras no verão não mudou o rumo da aposta. O defesa-central não correspondeu às expectativas e o lateral não passou da categoria sub-21.

Daniel Carvajal e David Alaba comemoram o gol de Gonzalo Garcia contra o Athletic / AFP7 via Europa Press / AFP7 via Europa Press
Contra o Bayern, Arbeloa disputou a partida mais importante da temporada sem nenhum jogador elegível para a Espanha. Falta identificação em alguns setores do Real Madrid com a pintura de Luis de la Fuente pela falta de representantes que se sintam ‘seus’.
Contrasta com o apego que a pedreira gerou para a primeira equipe em um ano de seca absoluta. O Castilla, com tensão federativa, disputará os play-offs de promoção ao segundo lugar, categoria em que não disputa desde 2013/2014. Juvenil assinou uma tripla após vencer a Copa dos Campeões, mas A Fábrica Continua a ser uma entidade independente em Valdebebas, onde a ‘espanholização’ é apenas uma promessa recorrente.



