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Abel Ferreira sob pressão: até onde a personalidade forte deixa de ser combustível e vira desgaste no Palmeiras

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até onde a personalidade forte deixa de ser combustível e vira desgaste no Palmeiras

Há um tipo de treinador que não consegue assistir ao jogo. Precisa vivê-lo, disputá-lo, cobrá-lo — e, invariavelmente, sobrar um pouco para o lado de fora da linha de cal. Abel Ferreira é desse tipo. Foi assim que ele construiu o ciclo mais vitorioso da história recente do Palmeiras, e é assim que, a cada poucas semanas, ele reabre uma discussão que o clube já não consegue tratar apenas como folclore.

O episódio mais recente aconteceu no dia 30 de agosto, no Maião, em Mirassol. O Palmeiras empatou por 1 a 1 — gol de Carlos Eduardo para o time da casa, Maurício para o alviverde — e viu a vantagem na liderança do Brasileirão 2026 cair para quatro pontos sobre o Flamengo, chegando aos 52. Nos minutos finais, revoltado com a arbitragem, o técnico do Palmeiras chutou um microfone de transmissão instalado à beira do gramado. Não foi expulso. Dois dias depois, o assunto já não era mais só comportamento: era processo.

O que aconteceu — e por que voltou a repercutir

A cena viralizou nas redes antes mesmo do fim da coletiva. Na entrevista, Abel foi duro com a equipe de arbitragem comandada por João Vitor Gobi, sustentando que o critério não se manteve ao longo dos 90 minutos e que jogos com esse peso — um candidato ao título contra um time em situação delicada — exigem árbitros mais preparados. Ele contestou ainda a expulsão de Arthur nos acréscimos, num lance em que a infração teria sido cometida por Lucas Evangelista, sem intervenção do VAR.

Na segunda-feira (1º), a Procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva denunciou o treinador com base no artigo 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata de conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada em outro dispositivo. A pena prevista varia de uma a seis partidas, embora o próprio código permita substituição por advertência quando a infração é considerada de pequena gravidade. Na mesma denúncia, o árbitro Gobi, o quarto árbitro Roger Goulart e o VAR Ilbert Estevam da Silva foram chamados a explicar por que Abel não foi expulso em campo.

Ainda no dia 1º, veio outra notícia na mesma direção: a Conmebol multou o português por ter chutado um microfone durante a partida contra o Cerro Porteño, em Assunção, pela Libertadores. Foram duas penalidades — uma disciplinar, de US$ 10 mil, e outra referente ao ressarcimento do equipamento danificado, de US$ 1.832,60, segundo apuração da ESPN.

Ou seja: não se trata de uma reação isolada mal interpretada pelas câmeras. Trata-se de duas ocorrências semelhantes, em competições diferentes, dentro da mesma temporada, com consequências formais em duas jurisdições distintas.

O histórico que transforma episódio em padrão

Um comportamento vira pauta quando se repete. E o repertório de Abel Ferreira é longo o bastante para ter virado categoria própria na cobertura esportiva brasileira.

O precedente mais direto é de fevereiro de 2025, quando o STJD o suspendeu por duas partidas por episódio praticamente idêntico — o microfone chutado no Mané Garrincha, durante a Supercopa do Brasil contra o Flamengo. No voto, o relator Alexandre Monguilhott foi explícito ao classificar o técnico como um profissional de currículo excepcional, porém “muito atuante e reativo”, e ao registrar que ele não era réu primário. Há também suspensão anterior por gestos obscenos em jogo de Copa do Brasil diante do Flamengo, revertida na ocasião por efeito suspensivo obtido pelo departamento jurídico alviverde.

Fora dos tribunais, a lista inclui a resposta fora do tom a uma repórter da Band News FM, pela qual ele se retratou publicamente; a crítica à própria torcida após um empate de estreia de Brasileirão, seguida de pedido de desculpas no Instagram; a coletiva encerrada de forma abrupta no Barradão, que rendeu nota oficial do clube negando abandono da entrevista; e a insistência recorrente no tema das “narrativas” envolvendo o Palmeiras e a arbitragem.

Um levantamento do ge publicado em março deste ano apontava 13 expulsões do treinador desde sua chegada, em 2020. É um número que, sozinho, explica por que a discussão deixou de ser sobre temperamento e passou a ser sobre gestão de risco.

O que dizem colunistas e analistas — e o que isso é (e não é)

Aqui vale uma distinção que boa parte do debate on-line ignora: opinião de comentarista é opinião, não sentença.

Após o empate em Mirassol, Felipe Melo, hoje comentarista da Globo e ex-capitão do próprio Palmeiras, criticou no #FechamentoSporTV a decisão de Abel de citar publicamente a condição física de Vitor Roque ao explicar o rendimento da equipe. Para ele, o líder assume a responsabilidade coletiva diante da imprensa e reserva a cobrança individual para o vestiário. É uma leitura legítima e vinda de alguém que conhece o ambiente por dentro — mas continua sendo uma leitura.

Colunistas do UOL também repercutiram negativamente a conduta do treinador no episódio, com críticas que envolveram as reclamações de arbitragem, a entrada no gramado e o chute no microfone. E foi no De Primeira, na terça-feira (1º), que Paulo Vinícius Coelho afirmou existir incômodo interno no Palmeiras com a postura de Abel à beira do campo, acrescentando que o clube já tratou do assunto diretamente com o treinador.

É informação de bastidor apurada por um jornalista experiente — não é comunicado oficial. A distinção importa, ainda que, neste caso, o relato converse com algo já publicado meses antes: a reportagem do ge de março descrevia exatamente esse arranjo, com dirigentes e integrantes do departamento de futebol reconhecendo a competitividade do técnico, mas avaliando que os excessos precisavam ser contidos, em conversas internas e sem exposição pública. O mesmo texto registrava respaldo integral de Leila Pereira e de Anderson Barros, além da percepção, dentro do clube, de que Abel às vezes é tratado como bode expiatório em discussões sobre arbitragem.

O possível incômodo interno: apoio não significa ausência de cobrança

Nada indica ruptura. O contrato de Abel Ferreira vai até 2027, a diretoria o trata publicamente como peça central do projeto e o time lidera o Brasileirão. Na noite de quarta-feira (2), o Palmeiras segurou o 0 a 0 na Vila Belmiro e avançou às semifinais da Copa do Brasil pela primeira vez desde 2020, onde enfrentará o Vasco.

O que os relatos sugerem é outra coisa, mais sutil e mais realista: um clube que sustenta o treinador em público e negocia limites em privado. É o comportamento típico de uma instituição que aprendeu a separar o valor do profissional do custo eventual de suas reações — e que prefere administrar isso longe do microfone. Literalmente.

O próprio Abel, aliás, não finge que o tema não existe. Após a classificação diante do Santos, ele elogiou o trabalho do árbitro Davi de Oliveira Lacerda, mencionou punições anteriores e afirmou que não pretende separar sua personalidade da forma como vive as partidas. Disse que extravasa, que já foi julgado, que é humano e que erra como todos. É uma defesa coerente com quem ele é. Não é, necessariamente, uma resposta ao problema que o clube identificou.

Personalidade forte: vantagem competitiva ou risco institucional?

Os dois lados têm argumentos sólidos, e fingir o contrário empobrece a discussão.

A favor: intensidade é parte do método. Abel construiu no Palmeiras um time que corre, disputa, sofre e não abandona o jogo — e essa cultura não nasce de um treinador plácido. A defesa pública dos atletas, a briga por cada decisão, a disposição de comprar conflito com federação, imprensa e arbitragem funcionam como escudo: enquanto o técnico atrai o holofote, o elenco joga mais leve. Times campeões costumam ter alguém disposto a pagar esse preço, e o histórico de títulos sugere que o método entrega.

Contra: o mesmo escudo tem custo acumulado. Cada denúncia é risco de gancho, e cada gancho significa um jogo decisivo comandado do camarote. Cada reincidência aumenta a dosimetria da próxima punição — foi exatamente o argumento usado pelo relator em 2025. Cada polêmica desloca a pauta do desempenho para o comportamento, obriga o clube a gastar capital político em defesas e cria desgaste com a imprensa e com o ambiente de arbitragem. Há ainda o efeito menos mensurável: quando o técnico normaliza a reclamação permanente, o elenco tende a reproduzir o padrão — e o Palmeiras já viu jogadores expulsos por protesto em sequência.

Como isso chega aos jogadores, à arbitragem, à torcida e à direção

Nos jogadores, o efeito é ambíguo. Ver o treinador comprando briga costuma gerar identificação, mas também autoriza comportamentos que custam cartões em momentos ruins. E quando a cobrança individual vaza para a coletiva — como no caso de Vitor Roque — o gesto que deveria proteger acaba expondo.

Na arbitragem, existe um efeito reputacional que ninguém admite oficialmente, mas que todo mundo no futebol reconhece: pressão constante pode intimidar em um lance e endurecer o critério no seguinte. Não há como medir. Há, porém, como observar que Abel virou personagem recorrente em relatórios e súmulas.

Na torcida, a intensidade é ativo enquanto vem acompanhada de resultado. Em ciclos ruins, o mesmo traço é lido como desequilíbrio.

Na direção, o cálculo é frio: apoiar publicamente, corrigir internamente e torcer para que a soma de multas, denúncias e suspensões não custe um título.

O que pode acontecer daqui para frente

No curto prazo, o julgamento no STJD é o ponto concreto a acompanhar. A moldura do artigo 258 permite desde advertência até seis partidas, e a reincidência tende a pesar contra o treinador — ainda que o Palmeiras historicamente recorra a efeito suspensivo com sucesso. O calendário não ajuda: setembro combina reta decisiva do Brasileirão 2026, semifinal de Copa do Brasil contra o Vasco e um elenco com lista extensa de desfalques.

No médio prazo, o cenário mais provável não é ruptura, e sim contenção. Um clube que quer renovar com o treinador mais vitorioso de sua história não se separa dele por causa de um microfone. Mas também não deixa o tema sem tratamento quando ele já produziu multa internacional, denúncia doméstica e desgaste público na mesma semana.

Conclusão: o problema não é a personalidade — é a ausência de válvula

Minha leitura, como análise e não como apuração, é que o debate está mal formulado quando propõe escolher entre “Abel intenso” e “Abel controlado”. Essa escolha não existe. A intensidade é indissociável do que o torna eficaz, e um treinador domesticado provavelmente perderia parte daquilo que o Palmeiras contratou.

O que parece faltar não é temperamento menor, e sim canalização melhor. A diferença entre liderança forte e desgaste institucional raramente está na emoção — está no endereço da emoção. Cobrar o árbitro na coletiva é legítimo. Chutar equipamento de trabalho de terceiros não é, e transforma um argumento defensável em processo disciplinar. Defender o elenco é liderança. Nomear um atacante em recuperação diante das câmeras é transferir peso para quem já está carregando.

Abel Ferreira chegou a um ponto da carreira em que o placar não é mais suficiente para encerrar a discussão sobre método. O ciclo é longo, os títulos existem, o respaldo interno é real — e é justamente por isso que a cobrança mudou de natureza. Não se pede mais que ele prove competência. Pede-se que administre o próprio custo. Esse, talvez, seja o desafio mais difícil para quem construiu tudo o que construiu justamente por nunca ter aprendido a se conter.

Fontes consultadas: transmissão e coletiva pós-jogo Mirassol x Palmeiras (30/08/2026); Gazeta Esportiva; Terra; VAVEL Brasil; Diário do Grande ABC; Gazeta Web; Palmeiras Online (com base em apuração da ESPN); ge.globo; De Primeira (UOL); #FechamentoSporTV; site oficial da SE Palmeiras.

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