Você já ouviu falar em futebol arte?

Outro dia fiquei decepcionado profissionalmente e até indignado passionalmente com uma discussão em um grupo de uma rede social digital composta basicamente por jovens. Isto é muito bom para que o profissional esteja sempre atento, se “policiando” para não colocar opinião como fato. Se em jornalismo o que se propaga é que existem versões e não verdade absoluta, contemplar certos diálogos nos coloca no nosso devido lugar. O de respeitar cada ouvinte, cada leitor, cada telespectador, cada internauta. Um dos membros do referido grupo “palestrava” ou “doutrinava”: “… tem que ter Mundial, fulano. Não interessa se o clube já caiu ou se está na Série “B”. Outro, um pouco mais ponderado, porém torcedor de um time que perdeu duas decisões intercontinentais de clubes respondeu: “Este modelo de Mundial Interclubes é injusto. Com duas partidas já se pode considerar alguém campeão”? O primeiro concordou: “Aquele de 2000, não considero”. Me meti na conversa: “Copa do Mundo de Seleções também não é justa. Meia dúzia de jogos em que uma delas poderia até empatar todas e passar nos pênaltis, mesmo que não marque sequer um gol nos tempos normais e ou nas prorrogações que seria Campeã”.  Nem para a organizadora exigir que na final, se um dos oponentes não tiver vencido sequer um jogo, que não tenha direito a mais uma prorrogação e mais decisões por tiros livres da marca do pênalti. O provocador desistiu: “Verdade. Não discuto mais”. E há tempo e dinheiro para uma competição mais justa e por mais de um mês, ao invés de promover uma Copa com ainda mais seleções. Com muito respeito a estas nações, mas Angola X Irã ou Togo x Coreia do Sul, por exemplo não devem ser campeões de audiência em todo o planeta (2006). Têm um ou dois jogadores que se destacam, mas seriam talvez quase emergentes do futebol. Mas a tendência é alcançarmos a Copa de 42 nações, para maior número delas ser agradado. A qualidade cai. Mas um time para ser grande tem que ter uma grande torcida, uma sala de troféus repleta de conquistas importantes, tem que ter uma história tocante, estrutura, centro de treinamento, ser competitivo quase sempre e ser viável. Não há mais lugar para um presidente fazer dívidas para o sucessor pagar.

Mas voltando aos jovens. Este diálogo é uma amostragem de que talvez as pessoas estejam perdendo o respeito pela história. Uma preocupação se o Campeonato Brasileiro é de 1971 em diante ou se seriam todos os torneios Nacionais. Fácil. Quem é a favor de 1971, que considere a partir daí. Quem pensa diferente, pense. Ou seja. Se é a partir dos anos 70, que se respeite quem mandou no futebol antes. Como se tivéssemos duas partes da história. Colocar como uma sequência só é a mesma coisa. Ou Pelé e Garrincha não tiveram nenhuma conquista nacional importante?

Com relação à qualidade, talvez seja a causa desta intolerância, uma “boa dose de futebol arte”. Parece que evoluímos no gol. Os goleiros pegam cada vez mais pênaltis e perdemos cada vez mais pênaltis. Onde foram parar os gols olímpicos? Por que faltas próximas ou não à área penal antes eram uma grande expectativa de gols, com Marcelinho, Neto, Zico, Rivelino, Dicá, Zenon, Renato, Éder, Nelinho e hoje vários jogadores confabulam perto da bola para jogadas ensaiadas que não dão em nada ou a bola é chutada direto para as populares. Quando é gol, a reação do goleiro é a que remete a “bola defensável”. As “canetas”, os “lençóis” e os “dribles da vaca” que são tantas vezes motivo de “replay” hoje eram habituais. Quando um gol acontece, o torcedor, o narrador, o comentarista incontinenti já buscam justificar com o “culpado”. “Faltou marcação”, “o goleiro falhou”, “deixaram esse homem passar por dois”, como se o gol não fosse a meta do futebol. O Santos de Pelé historicamente famoso no mundo ganhava de 6 x 4, de 5 x 3 e ninguém reclamava. Adquirimos uma síndrome “minimista” conformista (não necessariamente nesta ordem). Perdemos a confiança na grandeza, que é só lembrança, mas trocamos a cobrança por bom futebol por acharmos que quem ganhou nos últimos anos é que pode ser considerado bom. Ao colocar estas ponderações no plural da primeira pessoa é por causa desta tendência e destes sinais, com os quais eu não concordo. Assim como não me importo de ser chamado de saudosista. O pior é que “estamos” tratando o futebol como eterno assunto de boteco. Cada um quer “desenhar” a realidade de acordo com a conveniência do seu clube. Mas criticam emissora que interfere nas competições por seus interesses, dirigentes que seriam tendenciosos, convocações questionáveis (todos se consideram técnicos de futebol) de atletas para seleções. Triste.

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Paulo César Borges
Paulo Cesar Borges é jornalista graduado em Uberlândia, tendo atuado por 24 anos em emissoras de rádio, tv e em um jornal da região. Realizou coberturas jornalísticas em três países. Sua atuação anterior foi o retorno à rádio Educadora, por onde atuou nos anos 1990. Foi exatamente em 1990 que iniciou em 04 de janeiro sua trajetória na imprensa através do rádio. Passou várias vezes pelo prefixo 580 Khz (hoje Rádio América) e por nove anos defendeu as cores da Rádio Cultura AM.

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