Mostrando a cara

Houve um dia em que o país inteiro cantou, mesmo sem entender bem o que aquele jovem inconformado com a situação vigente queria dizer: “Não me convidaram pra esta festa pobre, que os homens armaram pra me convencer a pagar, sem ver, toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer”. Só que o que ele e todos nós, os seus contemporâneos, não sabíamos é que passado algum tempo a coisa ia mudar. Mas mudar para pior. E os inocentes e os que têm um mínimo de decência continuam pagando a tal conta.

A coisa desandou geral. No futebol, os clubes cada vez mais pobres, tanto de dinheiro quanto de elenco. Quem é dono ou tem parte nos direitos de transferência são os novos “sócios”, que por sua vez se fazem mais e mais bilionários. Os dirigentes que ainda insistem em buscar uma saída ou acreditam em milagre, acabam mesmo é metendo os pés pelas mãos. Contratam esses e aqueles, sonhando com montar um super time, que anunciam com orgulho, renovando a esperança do torcedor. Só que logo descobrem (muitos até já sabiam!) que aquilo era ouro de tolo. Então a saída é sacrificar o treinador, atirando-lhe às feras. E o Internacional manda Antônio Carlos embora; o São Paulo se esquece das tantas glórias colhidas com a extraordinária ajuda daquele goleiro e dispensa o técnico Rogério Ceni; Wagner Mancini, escolhido a dedo no momento de remontar a Chapecoense, que chegou a recusar uma oferta de trabalho gratuito, já não serve mais. O mais grave, no entanto, vem da torcida, que traz o ódio que se colhe nas ruas. E briga, e mata e ameaça de morte, revólver em punho, o presidente do Paysandu, que não vê outra saída e renuncia, temendo pela morte até mesmo do filho.

O que pensaria hoje aquele jovem que suplicava ao Brasil que lhe mostrasse a cara? E da situação política, com um presidente cassado e seu sucessor na berlinda, fora o antecessor já condenado, tudo em um curto espaço equivalente a metade de um mandato?

De uma coisa ele teria certeza. Bem ali ao lado, pisando as mesmas areias que ele, estava um poderoso sócio do país, que parecia querer montar uma joalheria. Porém não era o único. Havia muitos outros, tirando das estatais o que era mais que necessário para engordar uns porquinhos.

E o eleitor, será que está tirando proveito de tudo que anda vendo agora? Será que vai deixar de acreditar nas propostas de campanha e procurar saber o que o cara já fez na sua vida e na vida dos outros? Vai olhar a sua volta para ver quantas pontes, viadutos, trechos de rodovias e tantas outras coisas foram apenas iniciadas por quem prometeu, sabendo que não dava para cumprir?

A propósito, dia desses, em rede social, vi alguém que cobrava, com algo mais ou menos assim: “Ué, não era para Uberlândia voltar a sorrir?”

E eu pensei: Mas rapaz! Assim como o Brasil, ela anda muito triste! Além de tudo, meio banguelinha,  coitada!

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Odival Ferreira
ODIVAL FERREIRA é jornalista, locutor esportivo e autor de quatro livros, entre os quais UBERLÂNDIA ESPORTE CLUBE, A História e Seus Personagens.

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