Bravo! Bravíssimo!!!

Eu sempre o tive como um bom narrador ― de voz bonita, boa dicção, fluência na fala. Achava um pouco insistente, para não dizer repetitivo, especialmente no momento em que se podia discutir se havia falta ou não e quando o “craque” dava uma pisada na bola. É que no primeiro caso ele sempre diz: “o árbitro parou, olhou e disse: segue o jogo”! No outro, “que beleza’! Depois fui me acostumando, até porque ele foi se fazendo mais e mais criativo. Nos confrontos sul-americanos, por exemplo, veio com “e o árbitro disse: siga la pelota”! E continua buscando a tradução para as suas costumeiras frases de efeito. Nessa Copa das Confederações, chegou a pronunciar o “siga o jogo” em russo e o “que beleza” em árabe.

Como se isso servisse para melhorar a sua imagem, um dia eu soube que mesmo por pouco tempo, em sua juventude, morou em Uberlândia. Ouvi dele mesmo, em entrevista para uma emissora de TV local, que foi no princípio dos anos 1970 e que até jogou vôlei pelo Uberlândia Tênis Clube. Naquele tempo eu começava a carreira de narrador esportivo e vinte anos depois viria a ser presidente do clube que o teve como atleta.

Mas voltando ao seu estilo descontraído de narrar (ou seria alegre, brincalhão, debochado?), às vezes a fala é inoportuna, assim como qualquer piada não pode soar bem num momento de dor ou de aflição. E aqui me lembro de algo que talvez se encaixe no que aí é posto. Foi numa noite em que Boca e Ríver disputavam uma partida pela Copa Libertadores da América, em La Bonbonera, e na volta das equipes para o segundo tempo a torcida do Boca Juniores jogou gás de pimenta sobre os adversários. O jogo acabou suspenso, devido ao mal que aquilo causou a todos os que foram atingidos pelo spray que tanto queimava quanto sufocava. A preocupação era geral. E ao final de seu fiel relato sobre o acontecido, a “irreverência” o levou a brincar com o verbo haver, dizendo “haja o que hajar”, quando na verdade pretendia afirmar algo assim: de uma forma ou de outra, as equipes terão que retomar esta partida, de acordo com o que decidirem as entidades que comandam o futebol.

Por último, quero lembrar como ele fala sobre um atleta que após preparar uma jogada espetacular acaba se atrapalhando e erra tudo. É mais ou menos assim, usando o pronome oblíquo na terceira pessoa, como a criticar uma parcela considerável daqueles que dão mais importância ao que podem encontrar em um campo de futebol que numa sala de aula: “e ele pensou: agora eu se consagro”!

Semana passada, quando o Chile eliminou Portugal numa semifinal da Copa das Confederações, o moço me deixou frustrado. Os chilenos tinham cem por cento de aproveitamento na cobrança de pênaltis e seu goleiro, Bravo, já havia defendido duas bolas chutadas pelos portugueses. Veio a terceira cobrança lusa e ele defendeu de novo, garantindo assim a classificação do seu time. E ao que Bravo saltou para la pelota, bateu-me uma quase certeza de que o narrador pudesse usar aquilo ― não pra zoar, mas pra valer e talvez já traduzido para o espanhol, como Ahora yo me destaque bien!

Mas que nada! Também, pra que inventar, não é Milton Leite, se bastava gritar BRAVO e já teria nomeando o herói, falado da sua coragem e aplaudido a proeza?

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Odival Ferreira
ODIVAL FERREIRA é jornalista, locutor esportivo e autor de quatro livros, entre os quais UBERLÂNDIA ESPORTE CLUBE, A História e Seus Personagens.

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