Os craques da família Lana

O homem da calça mais surrada e uma das “cucas” mais privilegiadas do futebol brasileiro não foi o primeiro Cuca que treinou o Uberlândia Esporte Clube. É bom saber também que aquele que antes desse dava as ordens à beira do gramado não usaria a mesma calça a cada jogo, pois, como alfaiate que era, preocupava-se também com elegância.

Ali pelo final dos anos vinte do século passado, a família Lana, procedente do distrito de Jubaí, do município mineiro de Conquista, chegava a Uberlândia para aqui criar uma descendência ligada a diversos ramos de atividade, mas também ao futebol. Entre os que chegavam e aqueles que aqui nasceriam, seriam sete irmãos: Aderbal, Antônio, Dionísio, Élia, Josefina, Neidarte, Noêmia e Rosalvo. Cada um escolheu o seu “ofício”, mas dois dos meninos tinham uma paixão pela bola.

Um deles era Antônio, o Cuca, que foi técnico de outras equipes, mas especialmente do Uberlândia Esporte Clube no momento em que se profissionalizava. Jogar, não jogou, pelo menos a ponto de se destacar como o filho, brilhante meia-atacante que se revelou no juvenil do próprio Uberlândia, pelas mãos de Odilon Lara. Marquinhos chegou a fazer alguns jogos no time de cima, contudo não persistiu e dedicou-se a outra atividade, vindo a se aposentar recentemente como servidor da Universidade Federal de Uberlândia.

Outro apaixonado pela bola era Aderbal, sapateiro por ofício, mas que fez bela carreira como jogador de futebol, onde era conhecido como Ico. Começou a atuar pelo Uberlândia Esporte Clube ali por 1938, segundo pude observar durante a pesquisa que resultou no livro Uberlândia Esporte Clube, A História e Seus Personagens. Ele chegou quando o grande comandante, Juca Ribeiro, se afastava de suas funções e ali permaneceu por muitos anos. Participou de vários momentos importantes, como do jogo de inauguração do Estádio Olímpico de Goiânia, em 7 de outubro de 1940, e da partida que marcou a inauguração dos refletores do Estádio Juca Ribeiro,  no dia 3 de abril de 1951. Entre um e outro evento, Ico passou uma temporada em Campinas, jogando pelo Mogiana. Sua transferência, em 1947, deu o que falar: 600 cruzeiros de luvas, mais ordenado e um bom emprego na companhia.

Depois dessa segunda passagem pelo Uberlândia, Ico jogou também pelo Sal Tropeiro, cujo estádio (Nicolau Feres) ficava a poucos passos de sua casa, onde criou os seus meninos, na Rua Arthur Bernardes, entre as avenidas Engenheiro Diniz e Araguari. Saindo dali, o campo estava lá na esquina.

Desses meninos eu vi o surgimento e o progresso do lateral esquerdo Aderbal, que depois de defender o Uberlândia foi fazer sucesso em Goiás, principalmente no Itumbiara. Ali se revelou o técnico que andou, andou e está hoje no recém-criado Manaus, finalista do campeonato amazonense, disputando o título com o tradicionalíssimo Nacional, por onde Aderbal Domingos Lana também já passou com sucesso.

Outro menino de Ico foi Robertinho, que começou no futebol quando eu principiava no rádio.  Brilhou aqui e em muitas outras equipes. Encerrando a carreira, e já formado em Educação Física, continuou ligando ao esporte, até que se despediu deste mundo, muito prematuramente.

Aquele que nunca arredou pé da “terrinha”, o Freidines ― Freide, como a família e nós, os amigos, o chamamos ― também foi craque, mas embaixo dos três paus. Por anos e anos, foi o goleiro consagrado do Vasco da Gama, time da sua Vila Martins. E foi conversando com ele que certo dia eu disse:

― Dos meninos, só Hiroíto não se deu ao futebol?

E ele:

― O quê? Você narrou um jogo em que ele defendia o Itumbiara, contra o Uberlândia, lá no estádio JK. Ele era o “Graia”!

E foi aí que ele contou que a partir do juvenil do Ipiranga ― na safra que revelou Miron César, Maurinho e tantos outros ―, Hiroíto investiu um pouco na carreira de futebolista. Depois mudou o rumo de sua vida.

Por fim, Freide disse que até Elane, a única menina da casa do Ico e da Dona Deodete, viveu os seus dias de atleta, jogando vôlei.

Eis a foto tirada antes da partida que marcou a inauguração oficial dos refletores de Juca Ribeiro. Em pé, da esquerda para a direita: Rolim, Ico, Santos, Pedrinho, Inácio, Carrara, Prego, Tatu e Alicate. Agachados: Cotia, Adir, Veadinho, Wilfredo, Guim, Jarbas e Rui.

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Odival Ferreira
ODIVAL FERREIRA é jornalista, locutor esportivo e autor de quatro livros, entre os quais UBERLÂNDIA ESPORTE CLUBE, A História e Seus Personagens.

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