Sobre Wilfredo, Bom de Papo e Bom de Bola

Lá se vão nove anos desde que demos adeus a uma figura simpática e um craque que encantou os uberlandenses a partir do momento em que aqui se apresentou, atuando pela equipe visitante. Mas no mesmo instante ele também se sentiu atraído pela cidade e a sua gente e aqui veio morar, para jogar futebol, constituir família e tornar-se tintureiro por ofício.

Wilfredo Silva faleceu em 14 de maio de 2008. Por sugestão do amigo jornalista, Alberto Gomide, que publicou o que escrevi em sua coluna Resenha Esportiva, no Correio de Uberlândia, eu me despedi dele assim:

Um uruguaiozinho nascido em San José, no dia 12 de setembro de 1921, aos seis meses de idade foi levado para La Sierra. Ali cresceu e aprendeu a jogar futebol, mesmo contra a vontade dos pais. Um dia, viu-se obrigado a cortar as pernas de uma calça do pai e a pular a janela, pois a mãe o havia trancado no quarto, depois de ter escondido o seu calção. Mas era dia de decisão! Então ele fugiu, jogou e foi campeão.

Aos vinte anos, depois de ter passado até mesmo pela seleção uruguaia de novos, veio jogar em Porto Alegre, no Grêmio e no Força e Luz. Em seguida, em Minas Gerais — por América e Siderúrgica. Mas estava na Francana quando foi convidado a participar de uma partida amistosa, porém importante, do Uberlândia Esporte Clube. Gostaram dele e o trouxeram em definitivo.

Wilfredo Silva chegou a Uberlândia em 1948, sendo recebido com fogos, na estação da Mogyana. E ao contrário do que vinha fazendo pelo Brasil há seis anos, chegou para ficar. Viveu aqui os outros sessenta anos de sua vida.

Logo no início, conheceu Jordita, com quem se casou e teve Ramon, Wilfredinho, André Luíz e João Luíz. Jogou por cerca de dez anos pelo Uberlândia. Depois, sem os mesmos compromissos, mas com a mesma seriedade, em outros times locais, até virar técnico — de América de Morrinhos, Goiatuba, Ituiutabana, Fluminense de Araguari, União Bandeirantes, que foi campeão paranaense por suas mãos, e o próprio Uberlândia Esporte Clube, entre outros. Foi tintureiro e cortava a velha Uberlândia, de ponta a ponta, de bicicleta. Por onde passava, acenava ou acenavam-lhe: bom dia, Vandon! Como vai, Sé Moreno? Vou a lá no compá João Kalunga!

Agora a antiga bicicleta está guardada, lá no fundo de uma varanda. Ele não pedala mais. Também já não cumprimenta ninguém deste mundo de pecadores. E ao imaginá-lo no outro plano, até peço perdão ao grande Manoel Bandeira, porque me vem algo parecido com a bela imagem por ele criada para falar de Irene entrando no céu. E penso que ao chegar lá, montado naquela bicicleta, São Pedro possa estar esperando à porta. Não com a chave, mas com uma bola na mão.

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Odival Ferreira
ODIVAL FERREIRA é jornalista, locutor esportivo e autor de quatro livros, entre os quais UBERLÂNDIA ESPORTE CLUBE, A História e Seus Personagens.

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