Mudando o cardápio

Dia desses, ligando em um canal de esportes da televisão, dei com uma partida de futebol, válida pelo Campeonato Sul-Americano. Imaginei que fosse o da categoria sub-17, que sabia estar em andamento, porém logo notei que em vez de nomes de países, os contendores eram identificados como Tolima e Bolívar. Então descobri que aquele era outro sul-americano, que coincidia com o dos meninos, com os certames estaduais Brasil afora, com a Copa do Brasil, com uma fase eliminatória da Libertadores da América e sei lá com que mais. E por mais estranho que possa parecer, aquilo me fez pensar no quanto mudou o segmento de alimentação fora de casa.

O que eu desejo dizer é que um e outro andaram mexendo no cardápio. No futebol (que no fim de semana teve Fla-Flu ameaçado de ser realizado com apenas uma torcida ou sem nenhuma e jogo no Distrito Federal com portões fechados por falta do laudo dos bombeiros), antigamente as federações promoviam os campeonatos estaduais ― com turno e returno, jogo das faixas, etc. ― e esses preenchiam até mais que metade da temporada, às vezes despertando ou cultivando paixões pelo país inteiro. Depois disso, a CBF (entidade máxima e nossa legítima representante para o restante do mundo) vinha com o que um dia foi chamado de Taça Brasil e depois virou Campeonato Nacional. E todos os jornais e revistas, todas as rádios e qualquer televisão que se julgasse capaz de transmitir, que viessem para a beira do campo. Era diferente de hoje, quando até o site X ou Y “compra campeonatos” e então é preciso criar um monte deles pra vender, o que rende para muita gente, mas nem tanto para os clubes. Domingo e quarta são dias reservados para o Brasileirão, que já tem quatro divisões ― A, B, C e D, mas tudo passou a ser brasileirão. Na segunda, terça, quinta, sexta e sábado, encaixam-se os outros.

E o que foi feito das resenhas à mesa do boteco, se já não há mais tempo pra zombar do amigo cujo time perdeu no domingo, mas pode vencer o meu esta noite?

Também naquele tempo, a gente entrava em um restaurante, sentava-se à mesa e logo o garçon vinha nos apresentar o cardápio. Havia quem demorasse um pouco para se decidir sobre o que comer, mas a maioria não. No meu caso, a menos que estivesse em terras distantes, onde às vezes me sentia tentado a conhecer um prato típico do lugar, já tinha as minhas preferências. E me deliciava com o que até parecia ter sido criado especialmente para satisfazer o meu desejo. Claro que ali já haviam inventado o Sortido, que acabou virando o famoso PF. E nem demorou tanto para que chegasse o Self Service, que é essa modalidade que permite a cada um fazer o seu discreto mexido. Como ali se misturam todos os ingredientes e seus sabores, algum tempo depois fica difícil encontrar na memória qualquer referência de paladar ou cheiro do prato do dia. E assim tem acontecido também com o futebol. Ao terminar uma rodada, muita gente não é capaz de lembrar o placar registrado no jogo do seu time do coração e, às vezes, nem de que certame era aquele.

Por tudo isso é que bateu aqui uma saudade danada de quando me sentava à mesa e pedia um Filé à Parmegiana. Comia sem pressa, saboreando ao máximo. Depois ainda tinha a sobremesa e até o cafezinho, que muitos diziam que servia pra fazer boca de pito.

COMPARTILHAR
Odival Ferreira
ODIVAL FERREIRA é jornalista, locutor esportivo e autor de quatro livros, entre os quais UBERLÂNDIA ESPORTE CLUBE, A História e Seus Personagens.

DEIXE SEU COMENTÁRIO