Meu jogo inesquecível

Você tem seu jogo inesquecível. Seu pai tem ou teve. Seu amigo tem e eu tenho o meu. É bom ter mesmo, porque se você deixar para pensar nisso quando lhe interrogarem, ficará como a centopeia da parábola que morreu de fome e sede, porque a joaninha quis saber como ela conseguia andar com graça sem se atrapalhar com tantas perninhas.

Ela parou para refletir e dali não saiu. Ela simplesmente andava. Instinto. Querer saber como foi seu fim, pois não soube como começar. Assim você vai pensar, por exemplo: “é a decisão do Paulistão de 84, com o título santista”. Mas pensa que possa estar sendo injusto, pois a conquista do Mundial de Clubes pelo Grêmio de Renato Gaúcho, em 1983 também é inesquecível. Seu pai lembrava um jogo em que o futebol era romântico e o dinheiro era consequência. Hoje, trata-se de um negócio milionário.

Se faltava condicionamento físico, sobrava talento. Seu pai chamava os atletas de “bailarinos da bola”. Seu amigo pode achar inesquecível o título do Flamengo obtido diante do Santos, em 1983. Desde os sete anos tenho o meu. Técnica, habilidade, talento, golaços? Não! Tensão! Raça! Garra! Pressão! A partida Brasil x Argentina (quadrangular semi-final) foi para Rosário, apesar da tentativa do presidente ditador Jorge Videla ter manobrado para jogar no Monumental de Nunez, mas a campanha de “los Hermanos” fora incompatível.

O estádio Arroyito recebeu 40 mil pessoas que encheram o gramado de papel picado e serpentinas. A noite fria contrastava com a batalha que ocorreria, por isso seria noite para Chicão. Mas o melhor foi batista. Jogo truncado e com muitas faltas para a época. Era de se “roerem as unhas” e de se mastigar qualquer coisa o tempo todo. Se não vencessem os donos da casa “os canarinhos” poderiam deixar de depender das próprias forças, visando a final.

Apenas um grande perigo argentino, o Brasil assustou várias vezes. Zico, não vinha bem. Rivellino contundido, o capitão Oscar, perfeito. Não era bem a escalação que Coutinho pretendia. Ao final, a sensação de derrota dupla. Parecia que os brasileiros pressentiam que ali, fora o fim. Leão, Toninho, Oscar, Amaral e Rodrigues Neto; Batista, Chicão e Jorge Mendonça; Gil, Roberto Dinamite e Dirceu iniciaram pelo time de Coutinho; Menotti sempre escalava: Fillol, Olguin, Galvan, Pasarella e Ardilles; Tarantini, Gallego e Bertoni; Ortiz, Luque e o Impressionante Kempes. Viria a derrota do Peru, para os anfitriões, a final vitoriosa diante dos Holandeses e o troféu ficou no país-sede.

Mesmo não sendo finalista, a seleção brasileira foi protagonista. Nunca mais vi um terceiro lugar invicto. “Campeão moral”, como batizou Coutinho. Foi por causa daquela “porta arrombada” que se “colocou tranca reforçada”- explico: por causa de a Argentina ter enfrentado o Peru, sabendo do que precisava, que a FIFA começou a ponderar pela realização concomitante dos jogos decisivos.

Esse Argentina e Peru bem que pode ser uma das próximas histórias a serem aqui contadas. Tenho uma opinião alternativa para aquele jogo. Foi uma copa cheia de histórias, como Amaral salvando o Brasil na primeira fase, diante da Espanha; o gol invalidado de Zico contra a Suécia, com a bola viajando para a área, aos 45’03 e o jogo sendo abruptamente encerrado.

A disciplina do técnico em escalar time reserva contra a Áustria, pelo fato de o coletivo ter terminado com derrota dos titulares por 2 x 0; a curva no gol de Nelinho, na decisão do terceiro lugar; Fillol encaixou um pênalti do México e a “pastelada” do árbitro obedecendo ao sheick e revertendo uma marcação.

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Paulo César Borges
Paulo Cesar Borges é jornalista graduado em Uberlândia, tendo atuado por 24 anos em emissoras de rádio, tv e em um jornal da região. Realizou coberturas jornalísticas em três países. Sua atuação anterior foi o retorno à rádio Educadora, por onde atuou nos anos 1990. Foi exatamente em 1990 que iniciou em 04 de janeiro sua trajetória na imprensa através do rádio. Passou várias vezes pelo prefixo 580 Khz (hoje Rádio América) e por nove anos defendeu as cores da Rádio Cultura AM.

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