Quando se ganha perdendo

É certo que quem entra em uma disputa quer terminar em primeiro lugar. Mas nem sempre o ganhador, o que vai ficar na memória das pessoas e nas páginas da história, é aquele que chega à frente.

Tomemos por exemplo, Wanderley Cordeiro de Lima, o brasileiro que liderava a Maratona na Olimpíada de Athenas, em 2004, mas que acabou em terceiro lugar. Ele vinha dominando a prova, cheio de disposição e confiança, e já se aproximava do estádio onde seria aclamado como vencedor, quando foi agarrado pelo ex-padre irlandês, Cornelius Horan, e só se soltou com o auxílio do cidadão grego, Polyvios Kossivas. Depois daquilo, tendo perdido o ritmo e estando totalmente desestabilizado emocionalmente, viu-se ultrapassado por dois concorrentes que à hora do incidente vinham cerca de cento e cinquenta metros atrás.

Quero lembrar também a suíça Gabriela Andersen, que nos Jogos Olímpicos de Los Ângeles, em 1984, terminou a Maratona Feminina literalmente se arrastando. As imagens que o mundo não se cansa de ver mostram que ela pedia para não ser amparada, pois queria completar a prova. Depois explicou que, aos 39 anos de idade, tinha aquela como a sua última oportunidade. Ela ficou com a trigésima sétima posição, mas completou a prova e o mundo a aplaude até hoje, principalmente quando aquela cena de superação é exibida nas telas da TV ou em qualquer projeção.

Tudo isso nos é muito familiar, mas será que nos lembramos com a mesma clareza daqueles que em Athenas e Los Ângeles foram festejados como os grandes vencedores? Quantos entre os que agora acompanham esse raciocínio saberiam dizer que Wanderley Cordeiro de Lima ― depois do susto e de ter perdido além do tempo, também o equilíbrio emocional ― foi superado pelo italiano Stefano Baldini e pelo norte-americano Mebrahtom Keflezighi, campeão e vice respectivamente? Desses, muitos não se lembram, mas de Wanderley ― o vencedor moral, o grande prejudicado, etc. ― o mundo jamais esquecerá. Aquilo lhe valeu até a Medalha Pierre Coubertein, que só é conferida a autores de grandes feitos no mundo dos esportes.

E de Los Ângeles, quando finalmente o mundo admitiu a maratona para as mulheres, será que muitos se lembram que a medalha de ouro foi Joan Benoit, dos Estados Unidos; que Grete Waitz, da Noruega, foi medalha de prata e que o bronze ficou com Rosa Mota, famosa atleta de Portugal? Já de Gabriela Andersen, que terminou na trigésima sétima colocação, todos se lembram.

Agora, um último desafio: quem se lembra que naquela primeira Maratona Feminina da história havia uma brasileira, Eleonora Mendonça, que terminou em quadragésimo quarto lugar?

 

COMPARTILHAR
Odival Ferreira
ODIVAL FERREIRA é jornalista, locutor esportivo e autor de quatro livros, entre os quais UBERLÂNDIA ESPORTE CLUBE, A História e Seus Personagens.

DEIXE SEU COMENTÁRIO