A última Palavra

Com seus cabelos alourados e os olhos muito verdes, o jovem Marco Antônio Vieira foi galã nos primeiros momentos da TV Triângulo, a semente fértil da atual Rede Integração, fazendo teatro. O ator não prosperou, mas ali nasceu o locutor de rádio, com quem fui me encontrar cerca de três anos mais tarde, ao iniciar carreira na Rádio Cultura. Eu logo entrei pelos caminhos do esporte. Ele, assim como todos nós que tínhamos que improvisar diante de alguma necessidade, às vezes se via obrigado a atuar também nessa área. Depois acabou se revelando em excelente repórter esportivo, quando de novo nos encontramos, agora na Rádio Uberlândia, na famosa Equipe Carcará.

Marco Antônio sempre foi muito espirituoso e bom para fazer piadas, mesmo mantendo a pose de quem falava a sério. Eu me perderia no tempo a contar das suas, mas darei apenas um bom exemplo, lamentando não saber dizer onde tal fato se registrou. Já dizia Guimarães Rosa que “Minas, são muitas”. Emendando a definição do mestre, direi que umas tantas têm a mesma cara, ou o mesmo relevo.

Lembro-me que era um jogo noturno ― o dono da casa contra o Uberlândia Esporte Clube. E logo que se iniciou a partida, o repórter Marco Antônio chamou e disse:

― Odival, naquele morro, à sua direita, tem tanto torcedor quanto aqui dentro do estádio!

Dei uma olhadinha para aquele morro e fiquei com a certeza de já tê-lo visto em outras ocasiões ― ali, logo depois do muro que acompanhava a linha de fundo. E apenas observei:

― Ali é um cemitério, Marco Antônio! Os vultos que a gente pode perceber nesse lusco-fusco proporcionado pelo que sobra da luz dos refletores, são túmulos!

Eu disse aquilo com tal segurança que ele nem discutiu.

Encerrada a partida e após ter entrevistado os jogadores ainda dentro do campo, ele deu uma passada pelo vestiário para saber se não havia qualquer baixa, onde seria servido o jantar e se a delegação retornaria mesmo a Uberlândia naquela noite. E com aquilo, Marco Antônio fechou a sua participação na jornada esportiva. Porém ao que eu encerrava os trabalhos e já me despedia, ele chamou.

Cheio de curiosidade, eu o atendi. Imaginei que tivesse acontecido alguma coisa importante, capaz de motivar aquela intervenção extraordinária. Mas ele disse apenas isso: é só pra informar que os seus túmulos estão indo embora!

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Odival Ferreira
ODIVAL FERREIRA é jornalista, locutor esportivo e autor de quatro livros, entre os quais UBERLÂNDIA ESPORTE CLUBE, A História e Seus Personagens.

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