Sorte em dia de azar

Depois de vencer o campeonato paulista no ano do quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954, o Corinthians ficou 23 anos sem poder comemorar um título estadual. Por mais bem formado que fosse o seu time, a cada ano era uma nova decepção. E aquilo, mais que as piadas que vinham dos torcedores rivais, levava os corintianos ao desespero. E Walter Ferreira Mendonça, o Waltinho da Discolândia, já era um deles.
Mas Waltinho, que mal se lembrava daquele último título conquistado num tempo em que não passava de um garotinho, não perdia a esperança, nem deixava de prestigiar o timão. O seu envolvimento era tal que até se fez amigo de alguns diretores, como o presidente Vicente Matheus, com quem abriu as negociações que resultaram no empréstimo de quatro jogadores da base corintiana ao Uberlândia Esporte Clube. Agora, ajuda mais valiosa que essa mãozinha do time de Matheus, ele foi buscar junto a alguém bem mais especial!
Antes do campeonato paulista de 1975, aos pés de Nossa Senhora da Abadia, em Romaria, aquele apaixonado corintiano foi pedir uma graça e fazer uma promessa. Mas veio o campeonato e nada. No ano seguinte, a mesma coisa. Contudo em 1977, ao final de uma disputa com a Ponte Preta, que não se decidiu em duas partidas, o “milagre” se fez através do meia Basílio, que de santo, não tinha nada. E o Corinthians, finalmente, voltava a ganhar um campeonato paulista, num dia 13 ― que não era de agosto e sim de setembro, nem uma sexta-feira, mas terça.
E Waltinho fez carreata, churrasco animado com boa música, festa com muito chope e uma verdadeira multidão na Praça Tubal Vilela. Mas não se esqueceu daquela promessa. Então, liderando um grupo formado por dezessete romeiros e quase uma multidão a dar assistência ― uma verdadeira mordomia, segundo ele conta ― saiu a pé pela BR-365, em direção a antiga Água Suja. A caminhada que deveria durar cerca de quinze horas, estendeu-se por dois dias e meio, devido às tantas paradas que se transformavam em mais um momento de comemoração. Diante do Santuário da Abadia, com uma enorme bandeira do Corinthians e um grupo de crianças ao redor, o padre esperava a comitiva alvinegra para lhe dar boas-vindas.
Por último, deixei para contar que também fazia parte da promessa, o plantio de 23 mudas de manga, à beira da estrada ― uma para cada ano em que o corintiano sonhou com o título que teimava em não vir. Aquilo era para proporcionar sombra e alimento aos romeiros que por ali passassem no futuro. Se alguma vingou ou se todas tiveram o mesmo fim que as tantas árvores que choramos, ao assistir à maravilhosa festa com que o desacreditado Brasil encantou o mundo na abertura da olimpíada Rio 2016, não sei dizer. Mas que a promessa foi integralmente cumprida, isso foi.

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Odival Ferreira
ODIVAL FERREIRA é jornalista, locutor esportivo e autor de quatro livros, entre os quais UBERLÂNDIA ESPORTE CLUBE, A História e Seus Personagens.

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