Entrevista com João Paulo Medina/Segunda Parte

Depois de dar sua visão sobre o atual cenário do futebol brasileiro, o ex-diretor executivo do Uberlândia Esporte Clube (UEC), João Paulo Medina, em respostas longas e detalhadas, fala para o Manchete Esportiva os motivos, que, em sua visão, privaram o Verdão de conquistar a tão sonhada vaga para o Campeonato Brasileiro – Série D, além do quase rebaixamento para o Módulo II do Mineiro.

1 – ME: Porque você acha que suas ideias não surtiram efeito em equipes como Coritiba e Uberlândia Esporte?

Medina – Acredito que ideias isoladas de uma pessoa ou de um pequeno grupo não surtem efeito em clube nenhum. Para que se faça algo diferenciado, que exige mudanças radicais de mentalidade, de cultura e de processos, não basta ter um bom projeto na mão. A condição número 1 para que um plano de modernização dê certo é que os dirigentes ou responsáveis pelos destinos da instituição (ou seja, aqueles que têm verdadeiramente o poder e influência no clube e na comunidade) tenham plena convicção do que querem e apoiem todo o processo de construção de um plano de modernização. Dizer que apoia e já nos primeiros obstáculos, dificuldades ou mesmo erros de percurso (naturais em qualquer processo) começarem a desconfiar ou, pior, minar o trabalho que está sendo implantado, é o que mais observamos nos clubes de futebol.

2 – O que existe de semelhança entre os trabalhos do Coxa e no UEC ?

Medina: As experiências no Coritiba e no Uberlândia têm alguns pontos em comum, porém são distintas em sua essência. No Coritiba havia o compromisso formal dos dirigentes (eleitos graças ao plano que desenvolvemos para o clube) de que eu seria o grande responsável pela implantação dos projetos de transparência e modernização de todo o departamento de futebol do clube. Isto, de fato, nunca ocorreu e, por isso, após 5 meses de intenso trabalho, decidi deixei o clube para não ser conivente com procedimentos que não acredito e, sobretudo, não concordo.

Mas vamos falar um pouco do Uberlândia que, talvez seja o que mais interessa ao público leitor desta entrevista. Após longas negociações e sistemáticas recusas em aceitar o convite de consultoria da Universidade do Futebol, concordei em celebrar um acordo com o grupo gestor de futebol do clube, representado pelo Kriss Corso, e o Uberlândia E.C., representado por seu presidente, Guto Braga. Minha resistência em aceitar o convite para implantar um plano de modernização no futebol do clube se prendia a dois aspectos básicos. A necessidade de termos que montar em menos de 2 meses uma estrutura que incluía formação de comissão técnica e contratação de praticamente todo um grupo de jogadores, que entendesse o projeto e aceitasse as condições oferecidas, com um orçamento provavelmente menor do que o salário do Vitor, goleiro do Atlético, ou do Fábio, goleiro do Cruzeiro, já era por si só um risco enorme que eu não tinha nenhuma razão para aceitar.

3 – O orçamento do clube era um empecilho?

Medina: O orçamento do clube não passava de R$ 250.000,00 por mês, com todos os atletas contratados em regime de CLT. Vale a pena esclarecer que grande parte dos clubes de pequeno e médio portes brasileiros, inclusive os mineiros, ainda costumam fazer contrato com seus atletas, registrando na carteira de trabalho um valor simbólico de R$ 1.000,00 ou R$ 2.000,00 e o resto se paga por fora ou por meio do chamado “direito de imagens” que é, na verdade, apenas uma forma de burlar a Receita Federal. Entretanto, com a promessa do presidente do clube de que os resultados de curto prazo seriam relevados (desde que o UEC se mantivesse no Módulo I, acabamos aceitando o acordo.

4 – Especificamente em relação ao Uberlândia, o que foi determinante para que os projetos da Universidade do Futebol não dessem certos e o trabalho não continuasse?

Medina – O único fator determinante para que o trabalho não tivesse condições de ter sequência foi a falta de firmeza e convicção da diretoria para entender que um trabalho de mudanças que se pretendia implantar no clube, não se faz com um toque de mágica, do dia para a noite. Tivemos também um outro desalinhamento em relação ao setor de marketing e comunicação. Tínhamos acordado que esta área fundamental do clube seria gerenciada pela Universidade do Futebol ou alguma empresa de nossa confiança, entendendo que precisaríamos de um trabalho diferenciado e muito profissional no sentido de comunicarmos à população e à comunidade ligada ao clube sobre o que estava sendo realizado e que a compreensão dos torcedores seria fundamental para implantarmos um novo modelo de gestão administrativa e técnica para o Uberlândia. Lamentavelmente este acordo também foi descumprido.

5 – Por que não foi tomada nenhuma atitude quando o Uberlândia começou a emplacar a sequência de seis derrotas seguidas? Por que não foi feita nenhuma mudança no comando técnico ou contratações para evitar esta sequência de derrotas e o quase rebaixamento?

Medina – Esta pergunta reflete bem o dilema entre inovar, com todos os riscos que isto representa, e implantar um plano de modernização ou, por outro lado, conservar o modelo tradicional de gestão no clube. É a história se repete: quando se ganha está tudo certo e quando se perde está tudo errado. Embora não tenha se tornado público, várias atitudes internas foram tomadas durante a preparação da equipe e durante o campeonato, não só na fase de vitórias (é bom lembrar que o Uberlândia chegou a ser líder em uma etapa intermediária do campeonato), como na fase de grandes dificuldades e derrotas. Em um campeonato curto como é o caso do estadual mineiro, mudança de treinador só faz sentido se você tem a convicção de que o substituto pode resolver o problema faltando poucos jogos para terminar o campeonato.

6 – E em relação à contratações. Não eram necessárias?

Medina: Quanto à contratação de novos jogadores, a mesma lógica foi seguida, principalmente porque a proposta que pretendíamos implantar era baseada no modelo de trabalho e não apenas na qualidade individual dos jogadores. A aposta (mesmo com riscos que se sabia que iríamos correr) era no trabalho coletivo que precisa de adaptação e algum tempo, já que alguns erros são inevitáveis. É como o processo de aprendizado do andar de uma criança. Ela, no início fica sentada, engatinha, fica em pé, cai, dá um ou dois passos e cai, até que consegue andar naturalmente. Isto serve para entender que uma equipe não se forma só com jogadores que tenham uma qualidade individual específica e considerada isoladamente. Isto no passado era válido e dava resultados. O jogo era baseado mais no talento individual e menos no jogo coletivo. Hoje em dia a construção de uma maneira de jogar, com qualidades técnico-táticas e comportamentais coletivas, ou seja, a construção de uma “inteligência” coletiva é cada vez mais decisiva para o trabalho dar certo.

7 – O clube tinha recursos para buscar alternativas?

Medina: Outro aspecto importante é que não havia recursos financeiros suficientes para trazer novos jogadores que, de fato, pudessem garantir qualidade à equipe. Basta dizer que até o momento o clube não cumpriu suas obrigações com muitos dos profissionais contratados. Estamos pagando o preço por isso. Vários atletas vieram para o Uberlândia por Foto: Divulgaçãoconfiar em nosso trabalho e em nossa palavra, mesmo ganhando menos do que o ofertado por outros clubes. Outros não quiseram vir porque não conseguirmos garantir um contrato por mais que 4 meses, o que é de se lamentar, mas faz parte da atual realidade do futebol brasileiro.

8 – Mesmo não estando presente no dia a dia do clube, durante o Mineiro, você teve conhecimento dos vários problemas internos entre jogadores e dos rachas no elenco?

Medina – A proposta, aceita por todos, é que a gestão do Departamento de Futebol do clube seria conduzida pelo Superintendente Mauro Rocha e a Coordenação Técnica exercida pelo Luís Esteves. Eu não era o CEO, como foi divulgado no início, pois não podia assumir este compromisso de estar em Uberlândia no dia a dia do clube, pois como era do conhecimento de todos estava coordenando vários outros projetos na Universidade do Futebol. Mas tinha um relato minucioso sobre o dia a dia do clube. E posso assegurar, sem medo de errar, que muitos dos problemas internos foram provocados por pessoas que não acreditavam no trabalho e tentaram miná-lo já desde as primeiras semanas, na pré-temporada. Quando a equipe começou a ganhar estes elementos se aproximaram dando o “apoio ao bom trabalho que estava sendo feito” e, em seguida, com a sequência de derrotas, voltaram a minar tudo que estava sendo feito.

9 – Tanto o Mauro Rocha quanto o Luís Esteves eram profissionais qualificados, mas com experiência apenas em categorias de base. Você não acha que o clube, pela cobrança local e tradição que tem, necessitava de profissionais com maior experiência no futebol profissional? O Uberlândia não acabou servindo de laboratório para eles?

Medina – É bom deixar claro que, o Presidente do Uberlândia estava estudando a possibilidade de ter o Mauro Rocha e o Luís Esteves para trabalharem no clube. Se quiserem procurar erros que cometemos (e entendo que cometemos alguns), este não foi o de ter indicado o Mauro e o Luís Esteves para conduzirem a implantação de projeto de modernização do futebol do Uberlândia. Grande parte dos problemas que tivemos no Uberlândia foi muito mais por conta dos aspectos já citados do que por inexperiência destes dois ótimos profissionais. Aliás, não teríamos dois profissionais melhores do que eles para implantarem, na sequência, uma escola de formação de atletas, que o plano previa. Aliás, este seria o grande trabalho a ser feito, ou seja, que o Uberlândia ao longo dos próximos anos pudesse formar seus próprios atletas, com uma capacitação diferenciada, com a “marca registrada” que poucos clubes têm condição de realizar de forma plena e adequada.

10 – Tem algum clube em vista para trabalhar?

Medina – Prestamos serviços para vários clubes, instituições e profissionais no Brasil e em outros países, interessados no futebol. Este é o nosso perfil. Não trabalhamos diretamente nos clubes, mas damos assessoria e consultoria. A experiência com o Uberlândia pretendia ser um outro modelo, que lamentavelmente não evoluiu.

 

 

 

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Eder Lúcio
Eder Lucio é jornalista formado no Centro Universitário do Triângulo (Unitri) e tem especialização em Jornalismo Esportivo. Trabalhou por oito anos como repórter do Jornal Correio de Uberlândia, no qual participou de coberturas jornalisticas na região e por todo o Brasil.

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