Entrevista com João Paulo Medina/Primeira Parte

O Manchete Esportiva conseguiu, com exclusividade, uma entrevista com João Paulo Medina, ex-diretor executivo do Uberlândia Esporte Clube (UEC), que depois da saída da Universidade do Futebol do Verdão, logo depois do encerramento do Campeonato Mineiro, ainda não havia falado com a imprensa local. Em um primeiro momento, Medina respondeu perguntas pertinentes ao futebol brasileiro.

Nesta quinta-feira (4), será publicada a segunda parte da entrevista, na qual o presidente da UF falará exclusivamente sobre os motivos pelos quais os projetos de modernização do futebol do UEC não deram certos.

 1 – Na sua análise, como anda a modernização do futebol brasileiro neste momento?

Medina – Não podemos dizer que nada de novo está acontecendo no futebol brasileiro nos últimos dois anos. Os 7 a 1 da Alemanha na Copa do Mundo em nossa própria casa foi um duro golpe no orgulho que tínhamos sobre a qualidade do nosso futebol. Se este resultado humilhante teve algum aspecto positivo foi o de fazer com que começássemos a repensar a maneira como estamos fazendo a gestão do futebol, do alto rendimento até a massificação deste esporte que, apesar de tudo, ainda é parte importante de nosso patrimônio cultural. Todos aqueles que apreciam e trabalham no futebol estão percebendo que precisamos de mudanças. Infelizmente, ainda temos muitos obstáculos a transpor. Um deles é a estrutura jurídica e política que sustenta o modelo de governança dos clubes de futebol, que dificulta muito as mudanças de forma rápida e compreensíveis para todos aqueles acostumados aos modelos mais tradicionais, que deram resultados no passado, mas que agora estão completamente obsoletos.

2 – Você acha que o técnico Tite tem o perfil e conhecimento suficiente para fazer um grande trabalho à frente da Seleção Brasileira?

 Medina – O Tite é inegavelmente um dos melhores treinadores que temos hoje no país e, em condições normais, já deveria estar trabalhando na Seleção Brasileira há algum tempo. Mas a questão por trás desta indicação, em minha opinião, é que ele sozinho não poderá mudar o cenário do futebol brasileiro. Conhecendo um pouco o Tite, acreditava até que ele não iria aceitar o convite neste momento em que a direção da CBF está envolta em muitas suspeitas e acusações de corrupção e má gestão. Ele já havia recusado o convite em outra ocasião e chegou a assinar um manifesto contrário aos atuais dirigentes da entidade. Se recusasse outra vez seria uma grande oportunidade para levantar a bandeira da transparência e ética no futebol, fortalecendo este movimento que clama por mudanças neste cenário atual. O fato de ele ter aceitado o convite, apenas fortaleceu a posição política dos atuais dirigentes da CBF e transferiu para ele o foco e responsabilidade pela melhoria do nosso futebol, o que penso que não é dele. O problema maior do futebol brasileiro não se resolve por meio apenas da escolha deste ou daquele treinador para a nossa Seleção, mas atacando as questões estruturais que precisam ser mudadas urgentemente. E isto não é o Tite quem irá fazer, mesmo que a Seleção passe a jogar melhor do que vinha jogando, o que provavelmente ocorrerá.

3 – Você acha que os técnicos brasileiros estão abaixo dos europeus e argentinos?

 Medina – Esta é, sem dúvida, uma importante questão. Treinadores europeus e mesmo os argentinos (incluiria aqui também os chilenos) trabalham em condições muito diferentes se comparados com os treinadores brasileiros.  Temos potencialmente bons treinadores no Brasil, mas creio Foto: Divulgaçãoque poderíamos estar entre os melhores do mundo se tivéssemos mais estrutura e condições para a realização de um trabalho mais profissional por parte de nossos comandantes técnicos. O futebol vem evoluindo muito, principalmente nos países europeus e nós, infelizmente, ficamos parados no tempo, por achar que não precisávamos aprender nada com ninguém e nem com as experiências bem-sucedidas de outros países.

4 – A ignorância dos brasileiros em adquirir conhecimento está prejudicando nosso futebol?

Este desprezo pela atualização e acompanhamento da evolução do futebol globalizado está nos custando muito caro. Como disse no início, isto começou a mudar depois da Copa do Mundo realizada aqui no Brasil. Nesta ocasião pudemos constatar que é preciso entender claramente o que está acontecendo com o nosso futebol e criarmos um plano de curto, médio e longo prazos, sob o comando da entidade que é estatutariamente responsável pelo fomento e desenvolvimento do futebol profissional e não profissional no país, ou seja, a CBF. Isto é imprescindível para que possamos evoluir e acompanhar o que se passa no mundo. E este é o nosso grande impasse no momento. Costumo dizer que hoje o Brasil está na segunda divisão do futebol mundial.  Temos plenas condições de voltar à primeira divisão, porém sem planejamento e investimentos de longo prazo em todos os setores estratégicos da cadeia produtiva do futebol a tendência é que daqui a 15 ou 20 anos estaremos na terceira divisão.

 

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Eder Lúcio
Eder Lucio é jornalista formado no Centro Universitário do Triângulo (Unitri) e tem especialização em Jornalismo Esportivo. Trabalhou por oito anos como repórter do Jornal Correio de Uberlândia, no qual participou de coberturas jornalisticas na região e por todo o Brasil.

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